Há quem adore o sol na pele e quem prefira a sombra segura; os dois grupos precisam saber qual é o protetor solar adequado para se proteger em todas as circunstâncias

Num dia típico de verão, é quase automático pensar em formas de se proteger do sol: chapéu, guarda-sol, óculos escuros. Mas, entre todas as maneiras de fotoproteção, nenhuma levanta tantas dúvidas quanto o protetor solar.
À primeira vista, ele parece só mais um item da lista de cuidados pessoais, como escolher o xampu de sempre — até chegar ao supermercado e encarar a prateleira cheia de opções. A variedade de termos, como “não comedogênico”, “FPS”, “UVA e UVB” “oil-free”, torna a decisão mais complexa, e as texturas variadas podem confundir até os mais decididos.
O resultado é que, muitas vezes, o protetor solar escolhido não funciona tão bem no dia a dia e acaba esquecido no armário.
Esta dificuldade pode se tornar um problema em um país que enfrenta altos índices de doenças de pele relacionadas à exposição solar — o câncer de pele, por exemplo, representa 30% de todos os tumores malignos registrados no Brasil , segundo o Ministério da Saúde. Além disso, a Sociedade Brasileira de Dermatologia estima que 60% dos brasileiros se expõem ao sol sem nenhuma proteção.
Por isso, preparamos um guia para te ajudar a entender qual é o protetor solar adequado às suas necessidades, respondendo às principais dúvidas sobre o assunto com a ajuda das especialistas Patrícia Guimarães, dermatologista do Real Hospital Português, no Recife, e Cinthia Bognar, oncologista do Hospital Alvorada Moema, em São Paulo.
FPS 30, 50, 70: qual escolher e o que significa?
FPS significa “fator de proteção solar” e se refere ao nível de proteção contra os raios UVB (Ultravioleta B), que atingem a camada superficial da pele (a epiderme) e são responsáveis pelas queimaduras solares.
É o número que indica por quanto tempo a pele fica protegida antes de começar a queimar. O FPS 30, por exemplo, indica que a epiderme levará 30 vezes mais tempo para ficar vermelha do que se não tivesse aplicado o produto. “Mas isso não é um número absoluto, pois existem vários fatores como cor da pele, quantidade, suor, banhos”, explica Guimarães.
Quanto maior o FPS, melhor?
De acordo com a American Academy of Dermatology, o FPS 15 filtra cerca de 93% dos raios UVB; o FPS 30 chega a aproximadamente 97%; o FPS 50, a 98%; e o FPS 100, a 99%. A diferença pode até parecer insignificante, mas na prática, é bem relevante.
Qual é o FPS recomendado para cada situação?
Bognar recomenda:
- Para uso diário urbano, recomenda-se FPS 30 ou mais, desde que inclua proteção UVA; para exposição intensa, como praia, piscina ou prática de esportes, é mais adequado utilizar um protetor com fator 50 ou maior.
“O FPS mais alto oferece uma maior margem de segurança, já que as pessoas costumam não aplicar a quantidade ideal ou reaplicar frequentemente”, explica a oncologista.
No entanto, ela salienta que, mesmo com FPS alto, a proteção ainda varia conforme o uso. “A eficácia real do protetor solar depende da quantidade e da forma de aplicação corretas, não apenas do número FPS”.
Quanto protetor solar aplicar e quando reaplicar?
O produto deve ser utilizado em quantidade generosa, formando uma camada uniforme, pelo menos 15 minutos antes da exposição solar. “A dose adequada é de 2 mg por cm², o que equivale a um copo de café pequeno (30 ml) no corpo todo”, exemplifica a oncologista.
Outro exemplo que também ajuda a entender quantidades é a famosa regra da colher de chá:
- 1 colher de chá para rosto e pescoço;
- 1 colher de chá para cada braço;
- 2 colheres de chá para cada perna;
- 2 colheres de chá para peito e abdômen;
- 2 colheres de chá para costas e lombar.
Para evitar que o efeito do protetor solar diminua ao longo do dia, a dica é reaplicar a cada duas horas e sempre após entrar na água, suar intensamente ou usar a toalha. Além disso, ao se enxugar, evite “esfregar” o tecido na pele — apenas encoste-o delicadamente no corpo.
Em situações de praia ou piscina, vale escolher fórmulas resistentes à água. Mas mesmo essas versões precisam ser reaplicadas para manter a proteção.
UVA, UVB, PPD, amplo espectro: como decifrar o rótulo do protetor solar
Se os rótulos parecem um idioma próprio, vale focar no que realmente importa, começando pela explicação principal.
A radiação ultravioleta (UV) é aquela emitida pelo sol e se divide em três tipos:
- UVC, que é filtrada pela camada de ozônio;
- UVB, parcialmente filtrada, responsável pelas queimaduras solares;
- UVA, que não é filtrada, penetra profundamente na pele, acelera o fotoenvelhecimento e também contribui para desenvolver câncer de pele.
Quando as embalagens falam em amplo espectro, ou broad spectrum, significa que o produto protege contra os dois tipos de radiação que mais afetam a pele, o UVA e o UVB. O FPS indica apenas a proteção contra UVB, enquanto o nível de proteção contra UVA é representado pelas siglas:
- PPD: Persistent Pigment Darkening (Escurecimento Persistente da Pigmentação, em português), que mede quanto o protetor solar age contra o escurecimento da pele causado pelos raios UVA;
- UVA-PF: UVA Protection Factor, ou fator de proteção UVA;
- PA+++: classificação que indica proteção alta contra raios UVA. Quanto mais sinais de “+”, maior o nível de proteção.
Protetor solar em creme, em gel ou sérum?
A textura do protetor solar faz toda a diferença. Não porque uma seja melhor do que a outra, mas porque ela é determinante na adesão ao uso diário. Portanto, é uma escolha pessoal e não há certo ou errado.
Hoje, já existem protetores em creme, em gel, em óleo, em loção, em spray, em sérum e em pó — além do bastão, que ficou mais popular nos últimos anos. “Peles oleosas costumam preferir protetores solares para o rosto em gel-creme ou bastão. No corpo, espalham melhor os produtos em creme ou loção”, sugere Patrícia Guimarães.
Outros termos ajudam a escolher a textura ideal para o dia a dia:
- protetor solar com toque seco ou matte sinalizam um acabamento menos oleoso, que costuma agradar peles mistas e oleosas;
- protetor solar não-comedogênico indica menor risco de acne, pois é formulado para não obstruir os poros;
- protetor solar resistente à água quer dizer que o FPS se mantém por 40 a 80 minutos na água, exigindo reaplicação após esse tempo.
Protetor solar em spray é tão eficaz quanto o em creme?
Apesar de práticos, eles podem entregar menos produto do que o necessário, o que pode comprometer a proteção — seja porque parte do produto se dispersa no ar, como destaca um estudo da Agência Australiana de Proteção contra Radiação e Segurança Nuclear (Arpansa), ou porque recomenda-se que ele seja espalhado, não apenas borrifado, e nem todo mundo cumpre as duas etapas.
Protetor solar com cor e outros produtos com FPS protegem?
O protetor com cor funciona perfeitamente sozinho, desde que se aplique a quantidade correta, e é benéfico especialmente para pessoas com melasma. “A pigmentação cria uma barreira extra contra a luz visível que causa manchas na pele”, diz a dermatologista.
Produtos como base, BB cream ou corretivo com FPS também protegem, mas têm o mesmo desafio. “Se houver dúvidas quanto à quantidade aplicada ser inferior à recomendada, uma opção é usar um protetor solar sem cor antes da aplicação da maquiagem com FPS”, afirma Cinthia Bognar.
Em resumo, como saber se o protetor solar é bom?
Nem sempre o produto mais caro é o melhor. O que deve receber atenção, de fato, são os fatores de proteção UVA e UVB, a textura compatível com o uso diário e a resistência à água, quando necessário.
Simplificando, são três simples princípios:
- FPS a partir de 30, sempre com proteção UVA alta;
- escolher uma textura que você consiga usar (e reaplicar) todos os dias;
- aplicar a quantidade correta e reaplicar a cada 2 horas.
Com essas três regras, qualquer protetor bem usado passa a trabalhar a seu favor.

