Fake news em saúde: miniguia para identificar informações falsas e se proteger

Identificar conteúdos falsos sobre saúde pode salvar vidas. Saiba como avaliar informações e proteger-se da desinformação

Você já recebeu uma mensagem no WhatsApp ou viu um post no Instagram dizendo algo como “esse remédio natural cura tudo”, “essa dieta previne qualquer doença” ou “o fulano que descobriu um método milagroso”? Cuidado: pode ser uma fake news.

Informações falsas podem atrasar diagnósticos, levar a tratamentos ineficazes e até colocar a vida em risco. Por isso, aprender a reconhecê-las é tão importante quanto cuidar do próprio bem-estar.

Em fala no Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp) de 2024, Bertalan Meskó, diretor do Medical Futurist Institute, lembra que a democratização do conhecimento trouxe grandes avanços, mas também desafios. “Trata-se de uma mudança de paradigma. Antes, a medicina estava em um pedestal, mas hoje isso não existe mais, pois o conhecimento está mais disponível”, explica.

Com mais informações ao alcance de todos, os pacientes ganham poder para participar ativamente das decisões sobre sua própria saúde, mas, ao mesmo tempo, cresce o risco de circulação de conteúdos enganosos.

Como avaliar se uma informação de saúde é confiável

1. Quem está falando?

Quando a mensagem vem de um médico reconhecido, de uma instituição de saúde, universidade ou de agências de checagem, as chances de ser confiável são maiores. Já quando aparece em correntes de WhatsApp, vídeos sem autoria no TikTok e no Kwai ou posts de perfis anônimos, a atenção deve ser redobrada.

Além disso, é comum que notícias falsas tentem ganhar credibilidade usando o nome de universidades ou institutos de prestígio. Circulam, por exemplo, mensagens dizendo que “um estudo de Harvard descobriu a cura milagrosa para determinada doença”, sem que exista qualquer publicação real que comprove essa informação. 

Durante a pandemia, um desses boatos afirmava que uma pesquisa de Harvard havia comprovado a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19. No entanto, a checagem do site Aos Fatos mostrou que isso era falso: não havia estudo da universidade com essa conclusão. 

Sempre que encontrar esse tipo de alegação, desconfie: procure a pesquisa original e confira se foi realmente divulgada pela instituição citada.

2. Evidência científica

Há estudos publicados que comprovam aquela afirmação? Foram revisados por especialistas? Tratamentos milagrosos ou dietas que prometem resolver todos os problemas não costumam ter respaldo científico. Se a notícia não traz referências a pesquisas ou órgãos oficiais, desconfie.

3. Data da informação

A ciência evolui rápido, e uma orientação válida há cinco anos pode estar desatualizada hoje. 

4. Objetivo do conteúdo

Ele parece querer vender um produto, suplemento ou “solução imediata”? Tem tom sensacionalista? Informações de saúde sérias costumam ser ponderadas, sem apelos emocionais ou promessas milagrosas.

5. Formato do texto

Mensagens em caixa alta, cheias de exclamações, ou que dizem “compartilhe com urgência” geralmente são pistas de que há algo errado. Conteúdos confiáveis trazem fontes, dados e explicações claras, sem precisar de apelo.

“A saúde é um campo fértil para a desinformação. Por isso, a comunicação clara e acessível é tão importante quanto a inovação tecnológica”, reforça o médico sanitarista Gonzalo Vecina, em entrevista para o relatório Desinformação e Covid-19: desafios contemporâneos na comunicação e saúde, publicado em 2023 pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Ferramentas para checar a veracidade de uma informação de saúde

Se bater a dúvida, não se limite a uma única fonte. Busque informações em diferentes canais e consulte agências especializadas. No Brasil, a Agência Lupa, o Aos Fatos e o Fato ou Fake (G1) se dedicam a investigar boatos que circulam principalmente nas redes sociais. O próprio Ministério da Saúde mantém canais com atualizações oficiais, além de guias e campanhas de esclarecimento.

Há ainda plataformas criadas para apoiar usuários na identificação de fake news, algumas desenvolvidas por universidades e institutos de pesquisa. Um exemplo é o Detector de Fake News do NILC-USP, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A ferramenta utiliza inteligência artificial para analisar textos em português e determinar a probabilidade de serem verdadeiros ou falsos, e está disponível online e também via WhatsApp. 

Checklist para saber se uma notícia é verdadeira ou falsa 

Antes de compartilhar qualquer conteúdo sobre saúde, faça um pequeno “check-up” da informação:

  • Pergunte-se: onde vi isso antes? Quem disse?
  • Procure a mesma notícia em veículos jornalísticos confiáveis.
  • Desconfie de conteúdos que parecem bons demais para ser verdade.
  • Atenção a imagens e vídeos: muitas vezes, eles são tirados de contexto ou manipulados.
  • Em caso de dúvida, consulte um médico ou outro profissional de saúde.

Essa postura crítica protege não apenas você, mas também familiares e amigos que poderiam ser enganados pelo simples ato de encaminhar uma mensagem.

O impacto das fake news: lições da pandemia

A pandemia de Covid-19 deixou um rastro de exemplos sobre como a desinformação pode afetar a vida real. Mensagens que prometiam curas milagrosas, como o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, se espalharam rapidamente e influenciaram escolhas de milhares de pessoas. 

Um estudo publicado no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene estimou que, em apenas três meses de 2020, mais de 5.800 pessoas foram hospitalizadas no mundo após seguirem orientações falsas sobre supostos tratamentos para o coronavírus.

Esse cenário reforça a fala de Meskó: “queremos ouvir o paciente e queremos que ele seja um personagem ativo no seu próprio cuidado”. Mas para ser ativo de forma segura, é preciso acesso a dados corretos e informações baseadas em evidência.

Por que tomar cuidado com fake news em saúde é dever de todos – inclusive seu?

Cair em uma fake news de saúde pode significar iniciar um tratamento inadequado, abandonar uma terapia necessária ou até colocar a vida em risco. Além disso, a desinformação aumenta a ansiedade e gera desconfiança em relação a médicos e hospitais. 

Como paciente ou familiar, você tem direito a informações seguras e transparentes. O paciente informado tem mais condições de conversar com seu médico, tirar dúvidas, entender tratamentos e até questionar condutas, sempre de maneira responsável. Por fim, exigir qualidade naquilo que circula on-line é uma forma de cuidar de si e da coletividade.

Mas, se por um lado temos mais acesso ao conhecimento, por outro a responsabilidade de saber filtrar aumenta. Atentar-se ao que você lê e repassa também é um dever. 

Para a jornalista Natalia Cuminale, fundadora do portal Futuro da Saúde, é fundamental que médicos, profissionais de saúde e jornalistas utilizem as plataformas digitais de forma a tornar o conhecimento sobre saúde e ciência o mais acessível possível. Em entrevista à Tribuna do Norte, em maio deste ano, ela destacou: “Não combater fake news é um problema de saúde pública. Levar a informação correta, conscientizar a população, faz com que as pessoas se vacinem e evitem a proliferação de doenças, o que pode trazer um impacto enorme.”

Hospitais, profissionais de saúde, jornalistas e pacientes precisam estar juntos nessa luta contra a desinformação. A saúde é um campo onde cada detalhe conta e, nesse sentido, o combate às fake news deve ser visto como parte do cuidado. 

Conferir antes de compartilhar é um gesto simples, mas que pode salvar vidas.

Na prática, isso significa adotar um olhar crítico sobre tudo que chega até você pela internet. Valorizar fontes sérias, checar evidências e recorrer a agências de checagem são atitudes que ajudam a construir um ambiente mais seguro. Como lembrou Meskó, o paciente deixou de ser espectador para se tornar protagonista. E protagonismo exige responsabilidade.

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