Dengue em 2026: cenário atual, avanços na vacinação e cuidados que seguem no radar

Mudanças importantes ampliam a proteção, mas não eliminam o perigo. Entenda o que observar, como se proteger e qual o papel da imunização nesse contexto

Segundo projeções apresentadas ao Ministério da Saúde por pesquisadores do projeto InfoDengue–Mosqlimate Challenge, o Brasil pode chegar a cerca de 1,8 milhão de casos de dengue neste ano — número inferior apenas ao de 2024, quando o país ultrapassou 6,5 milhões de registros.

Esses e outros dados reforçam que a dengue ainda representa um grande desafio para a saúde pública. Para contextualizar esse cenário, o infectologista Thiago Vitoriano Barbosa, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, esclarece as características do vírus e orienta sobre prevenção e a conduta adequada diante da suspeita de infecção. 

Veja, ainda, informações sobre a vacinação no país, incluindo os avanços recentes e o que muda com a nova vacina contra a dengue.

O que é dengue e quais os subtipos da doença?

A dengue é uma infecção viral transmitida pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, de hábitos urbanos e que se prolifera em locais com água parada — o mesmo vetor da zika e da chikungunya. Dias após picar uma pessoa infectada, o inseto passa a transmitir o vírus para outras pessoas, disseminando a doença.

“A infecção pode variar de forma leve até quadros muito graves, como febre hemorrágica e choque circulatório, especialmente em idosos e pessoas com comorbidades”, explica o infectologista Thiago Vitoriano Barbosa.

Segundo o médico, o vírus da dengue possui quatro sorotipos distintos, que circulam globalmente:

  • DENV-1;
  • DENV-2;
  • DENV-3; e 
  • DENV-4 — 

A infecção por um deles não garante proteção contra os demais. “Isso significa que uma mesma pessoa pode adquirir dengue até quatro vezes ao longo da vida”, destaca Barbosa.

Barreiras físicas e repelentes

É fundamental reduzir o risco de contato com o mosquito transmissor. Isso envolve o uso de barreiras físicas, como telas em janelas e portas, e a aplicação adequada de repelentes.

Barbosa explica que, para serem eficazes contra o mosquito, os repelentes devem conter substâncias específicas recomendadas pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como:

  • icaridina a 20–25%, com duração aproximada de dez horas;
  • DEET a 10–15%, com proteção de seis a oito horas;
  • IR3535, com duração de até quatro horas.

Esses produtos podem ser encontrados em diferentes apresentações, como loção, creme ou spray. 

No dia a dia, vale lembrar:

  • atenção ao acúmulo de água em pratinhos de plantas, calhas e lixeiras;
  • caixas-d’água e outros recipientes devem estar sempre vedados;
  • evitar, sempre que possível, áreas com maior presença do mosquito;
  • preferir roupas que cubram braços e pernas em locais com maior exposição.

Como saber se é dengue

Segundo o Ministério da Saúde, pessoas com febre alta, entre 39°C e 40°C, de início súbito, associada a pelo menos dois sintomas como dor de cabeça, prostração, dores musculares ou articulares e dor atrás dos olhos devem procurar um serviço de saúde para avaliação e orientação adequada.

Depois do período com febre, é importante manter atenção redobrada. A queda da temperatura, geralmente entre o 3º e o 7º dia do início da doença, pode marcar o início de uma fase mais delicada, com risco de agravamento do quadro. Nesse período, podem surgir sinais de alerta relacionados a alterações na circulação e ao risco de sangramentos.

Sinais e sintomas mais comuns

  • Febre alta;
  • dor de cabeça; 
  • dor atrás dos olhos;
  • náusea;
  • cansaço ou sensação de fraqueza;
  • dores nas articulações;
  • manchas vermelhas na pele.

Sinais de alerta para dengue grave

  • Dor abdominal intensa;
  • vômitos persistentes;
  • tontura ou sensação de desmaio;
  • dificuldade para respirar;
  • sangramentos pelo nariz, gengiva ou fezes;
  • cansaço intenso ou irritabilidade.

Suspeita de dengue? Evite estes medicamentos

Segundo Barbosa, anticoagulantes como aspirina (ácido acetilsalicílico) e anti-inflamatórios, incluindo ibuprofeno, cetoprofeno e diclofenaco, aumentam o risco de sangramento, especialmente em pacientes com queda de plaquetas ou sinais de alarme (pressão baixa, vômitos, dor abdominal, alterações de nível de consciência).

Corticoides também não são recomendados, pois podem prejudicar a resposta do sistema imunológico. “O paracetamol é o antitérmico de escolha”, orienta Barbosa. Para quem faz uso contínuo de medicamentos por outras condições, a recomendação é conversar com o médico. 

Qual é o tratamento para a dengue?

Não existe tratamento específico para a dengue. O cuidado é focado no controle dos sintomas, com reforço da hidratação, essencial para a recuperação do paciente.

Vacinação contra a dengue: estratégias e avanços 

Até o final de 2025, o Brasil contava com duas vacinas contra a dengue. Esse cenário ganhou fôlego com a chegada de um novo imunizante, 100% nacional, desenvolvido pelo Instituto Butantan. 

Dengvaxia (CYD-TDV) 

Tem uso restrito, indicada apenas para pessoas que já tiveram dengue comprovada, o que impede sua aplicação em campanhas de vacinação em larga escala.

Qdenga (TAK-003) 

O imunizante da farmacêutica japonesa Takeda, representa hoje a principal vacina utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Aprovada pela Anvisa para pessoas a partir de 4 anos, independentemente de infecção prévia, é aplicada em duas doses, com intervalo de três meses. Essa vacina vem sendo ofertada prioritariamente a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Para 2026, foram encomendadas pelo Ministério da Saúde 9 milhões de doses.

Butantan-DV

O avanço mais recente é o imunizante 100% nacional, desenvolvido pelo Instituto Butantan. Trata-se da primeira vacina contra a dengue do mundo administrada em dose única. 

O imunizante recebeu aprovação da Anvisa para uso em pessoas de 12 a 59 anos e utiliza a tecnologia de vírus vivo atenuado — método que emprega o vírus enfraquecido para estimular o sistema imunológico a produzir proteção sem causar a doença.

Ensaios clínicos conduzidos pelo instituto demonstraram que a nova vacina alcançou quase 75% de eficácia geralcontra casos de dengue, com ampla cobertura frente aos diferentes genótipos do vírus. Os estudos também apontaram mais de 91% de eficácia contra dengue grave e 100% de proteção contra hospitalizações.

Até o fim de janeiro, 1,3 milhão de doses serão entregues ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. A expectativa é que a vacinação se amplie progressivamente ao longo de 2026. Para viabilizar essa fase inicial, o ministério firmou contrato de R$ 368 milhões para o fornecimento de 3,9 milhões de doses do imunizante à rede pública.

Paralelamente, seguem em curso pesquisas para ampliar o uso da vacina, incluindo a avaliação em pessoas com 60 anos ou mais e a possível extensão da indicação para crianças de 2 a 11 anos.

O papel de cada um no combate à dengue

Informação, vigilância e cuidado seguem como pilares fundamentais no enfrentamento da dengue. Reconhecer sinais de alerta e buscar avaliação médica precocemente pode evitar complicações graves. Em um contexto de avanços na vacinação, a atenção aos próprios sintomas e às medidas de prevenção permanece como um gesto individual, simples e decisivo de proteção à vida.

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