Cirurgia bariátrica e suas técnicas mais atuais

As técnicas de cirurgia bariátrica seguem evoluindo para a segurança e conforto dos pacientes que enfrentam a obesidade. Saiba como

A obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, que acontece pela influência de diversos aspectos: biológicos, sociais, culturais, ambientais e até mesmo políticos. De acordo com o Ministério da Saúde, nas últimas quatro décadas, ela vem aumentando exponencialmente em todas as faixas etárias, representando um grande risco à saúde pública do Brasil e do mundo.

Segundo a Associação para Estudo da Obesidade (Abeso), a estimativa é de que, em 2025, mais 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo estejam acima do peso, sendo 700 milhões já com obesidade e com IMC acima de 30.

Esse crescimento traz consigo o aumento da prevalência de outras doenças como o colesterol, diabetes, hipertensão, problemas renais, doenças do fígado e até alguns tipos de câncer (cólon, mama e de reto). 

Diante desse cenário, a cirurgia bariátrica vem se mostrando uma alternativa eficaz contra a obesidade ao longo dos últimos. Por isso, não é de se surpreender que suas técnicas continuem evoluindo desde a década de 1970, quando foi realizado o primeiro procedimento em solo brasileiro.

O que é cirurgia bariátrica

É chamada por grande parte da população como “redução de estômago”. De acordo com o Ministério da Saúde, ela é conhecida dessa forma porque o formato do órgão é modificado para receber uma quantidade menor de alimentos.

A cirurgia bariátrica é para quem?

Segundo o cirurgião geral Renato Souza, especialista em cirurgia bariátrica do Hospital Divina, da rede Divina Providência, podem se beneficiar do procedimento pessoas com obesidade que não conseguiram controle adequado por tratamento clínico, especialmente quando associada a doenças que ameaçam a saúde.

“Além de diminuir o peso e tratar as comorbidades associadas, a cirurgia pode melhorar a qualidade de vida e ajudar no processo de resolução de problemas psicossociais”, afirma o médico.

Até maio de 2025, as indicações se restringiam principalmente a pacientes com IMC acima de 35 e portadores de doenças agravadas pela obesidade, como diabetes tipo 2, apneia do sono e hipertensão arterial, ou àqueles com IMC entre 30 e 34,9 quando havia diabetes tipo 2 sem controle clínico.

Com a atualização das normas pelo Conselho Federal de Medicina, publicada em 20 de maio de 2025, o acesso foi ampliado. Agora, pessoas com IMC entre 30 e 35 podem fazer a cirurgia se apresentarem condições como:

  • Diabetes tipo 2;
  • Doença cardiovascular grave com lesão em órgão-alvo;
  • Doença renal crônica precoce decorrente do diabetes tipo 2;
  • Apneia do sono grave;
  • Doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose;
  • Afecções com indicação de transplante;
  • Refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica;
  • Osteoartrose grave.

O CFM também passou a reconhecer a cirurgia em pacientes a partir dos 14 anos nos casos de obesidade grave (IMC acima de 40) associada a complicações clínicas. Já adolescentes entre 16 e 18 anos que atendam aos critérios estabelecidos para adultos também podem realizar o procedimento, desde que haja concordância dos responsáveis e da equipe médica.

Principais técnicas

Entre as técnicas disponíveis, Souza destaca que “as técnicas mais utilizadas na história da Cirurgia Bariátrica e, consequentemente, as que têm mais feedbacks de sucesso, são as Padrão Ouro: Bypass Gástrico e Sleeve Gástrico”.

Bypass Gástrico em Y de Roux

Essa técnica consiste em grampear o estômago, reduzindo drasticamente seu tamanho para limitar a quantidade de alimento que pode ser consumida. Além disso, é feito um pequeno desvio na primeira parte do intestino, o que aumenta a produção dos hormônios que controlam a saciedade e a fome.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), o Bypass Gástrico é realizado em 75% dos casos por ser uma técnica segura e apresentar resultados muito satisfatórios, com perda de peso que pode chegar a 70% a 80% do excesso corporal do paciente.

“O Bypass Gástrico é uma técnica cirúrgica consolidada há 50 anos. Tem ótimos resultados em termos de perda de peso e de resolução da Síndrome Metabólica”, conta o cirurgião.

Sleeve Gástrico

Também bastante conhecida, essa técnica apresenta eficácia na perda de peso similar ao Bypass. O Sleeve, ou manga gástrica, transforma o estômago em um tubo estreito, que suporta, no máximo, cerca de 80 a 100 ml.

A SBCBM informa que o Sleeve é realizado há mais de 20 anos e traz resultados positivos, especialmente no controle da hipertensão, colesterol e triglicérides.

“O Sleeve é seguro e eficaz, tem bons resultados de perda de peso. Contudo, pode causar refluxo e tem demonstrado uma significativa taxa de reganho de peso, o que elevou o número de cirurgias revisionais”, comenta o médico.

Novas técnicas de cirurgia bariátrica

Renato Souza cita quatro novas técnicas disponíveis. São elas:

Duodenal switch (DS) ou Derivação Biliodigestiva

O Duodenal Switch (DS), ou Derivação Biliodigestiva, combina duas técnicas: o Sleeve gástrico e um desvio intestinal. Nesse procedimento, o estômago reduzido é ligado diretamente à parte final do intestino delgado, diminuindo significativamente a absorção de nutrientes pelo organismo.

Geralmente, é indicado para pacientes superobesos, com IMC acima de 50.

“É uma cirurgia de maior complexidade técnica e, de modo geral, implica em maiores déficits nutricionais — o que exige forte adesão e acompanhamento clínico e nutricional a longo prazo. Além disso, tem menores índices de morbimortalidade em equipes experientes e que fazem a técnica com frequência”, complementa o cirurgião.

OAGB (Mini Gastric Bypass)

O Mini Gastric Bypass é uma variação do bypass gástrico em que há apenas uma união entre o estômago e o intestino delgado – chamada de anastomose. Anastomose é, basicamente, a ligação cirúrgica entre duas partes de órgãos ocos, como o estômago e o intestino.

No bypass tradicional (Bypass Gástrico em Y de Roux), essa ligação acontece duas vezes: primeiro entre o estômago e o intestino delgado e depois entre duas partes do próprio intestino. No Mini Gastric Bypass, ela é feita apenas uma vez, o que torna o procedimento mais simples e menos invasivo.

No Brasil, essa técnica ainda é pouco utilizada e costuma ser indicada principalmente para pacientes que precisam de uma cirurgia revisional após o Sleeve.

SADIS

SADIS é a sigla para Single Anastomosis Duodeno-Ileal Bypass with Sleeve Gastrectomy. O nome é grande, mas, na prática, significa a combinação de uma gastrectomia vertical (redução do estômago) com um bypass que liga o duodeno ao íleo. Essa técnica costuma proporcionar maior perda de peso e menor chance de reganho quando comparada ao Bypass tradicional.

“Técnica menos complexa em relação ao Duodenal Switch, mas necessita igualmente de experiência da equipe”, diz Souza.

Geralmente, é indicada para pacientes com diabetes, hipertensão arterial e colesterol elevado.

BTI (Bipartição do trânsito intestinal) 

A BTI é realizada em conjunto com a técnica de Sleeve Gástrico. Nesse procedimento, uma parte específica do intestino delgado – o íleo – é conectada ao estômago, provocando alterações hormonais que auxiliam no tratamento.

Geralmente, é indicada para pacientes que precisam melhorar o controle glicêmico.

Cirurgia bariátrica não é milagre

A cirurgia bariátrica sozinha não garante o sucesso do tratamento. Segundo o cirurgião, é fundamental que o paciente esteja comprometido e dedicado diariamente para alcançar os resultados desejados, seguindo alguns pilares essenciais:

  1. Cirurgia cuidadosamente avaliada e realizada por uma equipe experiente em hospital de referência;
  2. Consciência e comprometimento do paciente com todo o processo;
  3. Reeducação alimentar orientada por nutricionista;
  4. Prática regular de atividade física e suporte emocional com profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras;
  5. Acompanhamento contínuo com uma equipe multidisciplinar ao longo do tempo.

Medicamentos para emagrecimento X cirurgia bariátrica

Medicamentos para emagrecer existem há décadas, mas estão ganhando popularidade com a chegada das chamadas “canetas emagrecedoras”. Apesar desse fenômeno, Souza destaca que a cirurgia bariátrica continua sendo fundamental no tratamento da obesidade severa.

“As novas medicações têm suas indicações específicas, especialmente para pacientes com sobrepeso. Entretanto, para a obesidade mórbida, a cirurgia permanece sendo o método mais eficaz”, afirma.

Ele complementa que a cirurgia proporciona perda do excesso de peso e manutenção do peso saudável a longo prazo, ajudando no tratamento e prevenção de doenças associadas, além de melhorar os aspectos psicossociais do paciente obeso.

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