
Quem tem memórias sólidas da década de 1990 deve se lembrar de artistas famosos declarando “eu tenho peito” em rede nacional. A campanha “Câncer de Mama no Alvo da Moda” marcou a época e trouxe a atenção pública para uma doença, que deve ultrapassar 704 mil casos em 2025 no Brasil, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Mesmo quem não tem idade para lembrar deveria prestar atenção: a incidência de casos em mulheres com menos de 40 anos vem crescendo, e uma em cada três pacientes tem menos de 50, segundo dados do Painel Oncologia Brasil (CBR). Tanto que o Ministério da Saúde passou a indicar a mamografia para mulheres entre 40 e 49 anos, mesmo sem sintomas. Antes, a recomendação valia apenas para mulheres de 50 a 69 anos.
Há pelo menos 30 anos, o mês de outubro é marcado pelo Outubro Rosa, que amplia globalmente a discussão sobre o assunto e joga luz nos hábitos de prevenção e diagnóstico precoce da doença. E se o assunto é câncer de mama, não faltam mitos que confundem, verdades que assustam e perguntas fundamentais.
E há algumas perguntas que as mulheres hesitam em fazer. Essas dúvidas, às vezes consideradas “bobas”, podem ser justamente as que esclarecem riscos reais e mostram novidades em pesquisa e tratamento. É delas que falaremos a seguir.
Ponto de partida para falar sobre câncer de mama
A ciência já explicou que nem todo câncer de mama é igual, que desodorantes ou sutiãs apertados não causam a doença e que o autoexame não substitui a mamografia. Se quiser relembrar, falamos disso em outras postagens aqui do blog. Mas as dúvidas vão além disso, e médicos podem esclarecê-las no consultório.
“A pergunta mais curiosa que já recebi foi sobre a relação entre câncer de mama e açúcar. Não há nada comprovado cientificamente, mas eu sempre falo para os pacientes que não existe dúvida besta ou resposta óbvia. Tem que perguntar mesmo”, defende Pedro Exman, oncologista e coordenador do grupo de tumores de mama e ginecológicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Será que alguma dessas já passou pela sua cabeça?
1. Fui diagnosticada com câncer de mama. Meu cabelo vai cair?
Depende. Se o tratamento não inclui quimioterapia ou radioterapia, a perda de cabelo não é esperada. Já para quem vai passar por esses procedimentos, existem estratégias, como o uso de toucas frias, que ajudam a reduzir a queda – embora não a evitem completamente.
2. Preciso tirar minha mama por causa do câncer de mama?
Depende. Nem todo diagnóstico exige a retirada total da mama. Os médicos priorizam cirurgias conservadoras, que retiram apenas o tumor e parte do tecido ao redor, preservando o máximo possível da mama, combinando eficácia no tratamento e melhor resultado estético.
“Antigamente, se esperava a remoção total da mama ao diagnóstico. Hoje, a mastectomia radical não é mais o padrão. Na verdade, é o tratamento de exceção”, explica o oncologista.
3. Tenho prótese de silicone e recebi o diagnóstico de câncer de mama. E agora?
Não há necessidade de protocolos especiais. A presença da prótese não altera o diagnóstico, a prevenção ou o tratamento da doença. Também não existe relação entre seu uso e o risco de desenvolver câncer de mama.
“Os exames de prevenção e acompanhamento são os mesmos de qualquer mulher: avaliação clínica regular pelo ginecologista ou mastologista, exame físico das mamas e mamografias de rotina”, esclarece Exman.
4. Se já fui diagnosticada com câncer de mama, por que fazer atividade física agora?
“Esse é um assunto sobre o qual eu gostaria que me perguntassem mais em consultório”, provoca o médico. “É altíssimo o impacto do exercício físico tanto na redução da incidência do câncer de mama quanto na qualidade de vida das pacientes já diagnosticadas”.
A atividade física deve ser praticada regularmente, no mínimo três vezes por semana, com duração mínima de trinta minutos.
5. Câncer de mama não dá só em mulheres mais velhas?
Não. Embora a maioria dos casos ocorra em mulheres com mais de 50 anos, a doença também pode afetar mulheres mais jovens. Uma pesquisa publicada no jornal científico JAMA Open Network, que analisou mais de 500 mil pessoas entre 2010 e 2019, mostrou crescimento acentuado na faixa de 30 a 39 anos.
“A incidência de câncer de mama vem aumentando em todas as faixas etárias, mas nas mulheres abaixo de 50 esse aumento é mais acelerado, o que preocupa bastante. Ainda não sabemos o motivo específico, mas é fundamental que essas mulheres mantenham hábitos saudáveis no dia a dia.”
6. Tenho medo da mamografia. Ele é perigoso para o seio?
Não! Os benefícios do exame para o diagnóstico precoce de câncer de mama superam em muito qualquer risco ou desconforto. Ele utiliza uma dose muito baixa de radiação, considerada segura e controlada. Mesmo a radioterapia, tida como um dos pilares do tratamento, é segura. O que podem ocorrer são efeitos colaterais temporários, como vermelhidão e fadiga, mas que não têm implicações mais sérias.
7. Ouvi dizer que a IA vai começar a detectar câncer. É verdade?
Sim. Um estudo da Universidade de Lübeck, na Alemanha, mostrou que uma inteligência artificial aplicada em mamografias aumentou a detecção de câncer de mama em 17,6%, identificando casos que poderiam passar despercebidos pelos radiologistas.
Paralelamente, um exame de sangue desenvolvido por pesquisadores da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, detecta precocemente nove tipos de câncer com ajuda da IA, incluindo o de mama, com 84,3% de precisão.
E melhora: ainda no campo dos exames de sangue, uma técnica inovadora chamada biópsia líquida analisa pequenas partículas de DNA que os tumores liberam na corrente sanguínea, ajudando a descobrir a doença bem no início, acompanhar se os protocolos estão funcionando e identificar mais cedo sinais de resistência a medicamentos. “Isso permite ajustar o tratamento rapidamente e evitar que a doença avance. Na minha visão, essa é uma das ferramentas mais promissoras”, explica o oncologista.
8. É verdade que “chips da beleza” previnem o câncer de mama?
Não, pelo contrário. Os chamados chips da beleza são implantes subcutâneos que liberam hormônios, principalmente testosterona, que no organismo são convertidos em estrogênio, o principal hormônio feminino.
A exposição prolongada e sem controle, no entanto, pode aumentar o risco de desenvolvimento de câncer de mama. “Por isso o uso precisa ser muito bem conversado e, muitas vezes, é contraindicado”, completa o especialista.
9. Devo me preocupar mais com o câncer de mama durante a menopausa?
Depende. A menopausa é um processo natural que marca a última menstruação e antecede a diminuição gradual da produção de alguns hormônios. Esse processo não aumenta o risco; o que trazia risco, no passado, era a reposição hormonal sem acompanhamento adequado. “Especialmente na década de 2000, isso elevou o risco relativo entre 10% e 20% em comparação a mulheres que não fizeram reposição”, diz o médico.
Se ainda tiver dúvidas sobre câncer de mama, não hesite em conversar com seu médico especialista e revisitar as publicações da Anahp.

