O álcool pode afetar a saúde em diferentes momentos da vida, do período fetal à fase adulta. Entenda quais são os riscos mais comuns

O álcool é uma substância psicoativa, ou seja, capaz de alterar o funcionamento do sistema nervoso central. Embora o consumo frequente e em altas doses seja o principal responsável pela maioria dos danos à saúde, dados apontam que até mesmo pequenas quantidades podem ser prejudiciais ao organismo.
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou o álcool presente nas bebidas como cancerígeno do tipo 1, ou seja, existem evidências científicas de que a substância pode causar câncer em humanos, assim como o cigarro e o amianto.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só no ano de 2019, o consumo de álcool esteve associado a 2,6 milhões de mortes em todo o mundo. Além disso, pelo menos 7% da população mundial acima de 15 anos, cerca de 400 milhões de pessoas, têm algum nível de relação problemática com a substância.
Efeitos do álcool no corpo
Os efeitos mais imediatos incluem perda de reflexos, lapsos de memória, problemas de atenção e sonolência. Porém, o consumo frequente de álcool causa danos ainda mais graves a diversos órgãos internos. Segundo a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), os mais vulneráveis são:
– Coração: o álcool aumenta a liberação de adrenalina no sangue ao ser ingerido, acelerando a frequência cardíaca e sobrecarregando o músculo cardíaco.
– Fígado: o consumo frequente de álcool altera a produção de enzimas, afetando o metabolismo, podendo desencadear doenças como inflamação crônica, hepatite alcoólica e até cirrose.
– Rins: o álcool possui um efeito diurético no corpo, podendo causar sobrecarga renal e desidratação.
– Estômago: o álcool irrita a mucosa do sistema digestivo, causando esofagite, gastrite e diarreia.
Além dos efeitos físicos, há impactos na saúde mental. Segundo Ivan Piazarolo Ho, psiquiatra na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, o álcool “pode intensificar o sofrimento emocional e aumentar o risco de depressão e transtorno de ansiedade”.
Efeitos do álcool na gestação
Em artigo publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, a professora de neonatologia Conceição Aparecida Mattos Segre escreve que o álcool é considerado um agente capaz de causar alterações físicas e comportamentais tanto no feto quanto no recém-nascido, e é a causa mais frequente de retardo mental não congênito.
A autora frisa também que há correlação direta entre o nível de consumo de álcool pela gestante e os seus impactos. Ou seja, quanto maior o consumo de álcool, mais graves podem ser as consequências, como a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).
No recém-nascido, a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) pode ocasionar:
– alterações na face do bebê como fissuras palpebrais pequenas, ausência de filtro nasal e borda vermelha do lábio superior fina;
– deficiência de crescimento;
– comprometimento neurológico.
Já no longo prazo, a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) pode ocasionar:
– grave comprometimento intelectual, como QI abaixo de 70;
– déficit de atenção;
– Hiperatividade (presente em 50 a 80% dos casos);
– atrasos na linguagem;
– atrasos motores;
– dificuldades de integração social e comunicação;
– risco aumentado de doenças psiquiátricas na vida adulta;
– problemas com a lei;
– abuso de álcool e uso de drogas ilícitas na vida adulta;
– taxas mais altas de autismo do que a média.
É importante reforçar que, embora ainda pouco estudado, a ingestão de álcool pelo homem também pode ter impactos na formação do feto. Alguns estudos encontraram correlação entre o alcoolismo paterno antes da concepção com risco de microcefalia.
Efeitos do álcool nos jovens
O psiquiatra Ivan Piazarolo Ho diz que, embora o corpo humano finalize o crescimento ósseo entre os 16 e 18 anos, o cérebro ainda está em formação. Mesmo assim, muitos países já permitem o consumo de álcool por essa faixa etária.
“Consumir álcool na adolescência expõe o cérebro a uma substância que pode alterar o seu desenvolvimento, mesmo que nos anos finais”, explica.
Ho relata que o consumo de álcool, principalmente na adolescência, pode gerar sintomas de curto e longo prazo. A curto prazo, há um efeito depressor do sistema nervoso central, com sintomas relacionados à sonolência ou lentidão motora e cognitiva e queda no rendimento escolar. Já a longo prazo, os sintomas envolvem alterações comportamentais, como impulsividade, agressividade e instabilidade emocional.
Um exemplo dessas alterações comportamentais é a Síndrome de Abstinência Alcoólica (SAA), que ocorre quando uma pessoa faz uso constante de álcool e o interrompe abruptamente. “Os sintomas variam desde tremores, náuseas, inquietação ou até convulsões em casos extremos”, enumera o especialista.
O álcool como porta de entrada para outras drogas
O psiquiatra explica que o álcool é considerado uma gateway drug ou “droga de porta de entrada”, expressão usada para indicar substâncias psicoativas que facilitam ou estimulam o consumo de outras drogas.
O consumo frequente de álcool pode gerar a falsa impressão de que o uso de outras substâncias psicoativas, chamadas de SPAs, é mais aceito ou menos arriscado. Além disso, o álcool gera uma redução do julgamento, quando há diminuição na capacidade crítica no momento de tomada de decisões. “Significa correr riscos que não são aceitáveis quando se está sóbrio” diz Ho.
Outro ponto importante é que o uso de uma substância psicoativa, no caso o álcool, pode causar tolerância do organismo com o tempo, ou seja, é necessário quantidades cada vez maiores para gerar o mesmo efeito. E isso pode gerar, além do aumento do uso – em quantidade ou frequência, a utilização simultânea de outras substâncias.
Padrões de consumo de álcool
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe uma quantidade segura de ingestão de álcool. Qualquer dosagem, dadas as proporções, tem impacto direto na saúde humana. No entanto, há um padrão definido sobre o que pode ser considerado como consumo social, abusivo e dependência.
Consumo social
É quando a ingestão de álcool acontece atrelada a eventos sociais, como celebrações, festas e confraternizações. É marcado pela moderação e controle, ou seja, a pessoa que bebe sabe quando deve parar.
Consumo abusivo
É quando há uma ingestão de álcool bastante significativa em pouco tempo. Esse comportamento é conhecido como Beber Pesado Episódico (BPE) ou binge drinking.
Dependência de álcool ou alcoolismo
Segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), a dependência é considerada uma doença multifatorial, ou seja, não existe apenas um motivo para que ela se manifeste. O alcoolismo pode ter interferência direta de aspectos psicossociais, genéticos, ambientais e, inclusive, da quantidade e frequência de ingestão de álcool.
Hoje, o alcoolismo está descrito na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e é marcado por:
- forte desejo de beber;
- dificuldade de controlar o consumo de álcool e não conseguir parar depois de ter iniciado;
- consumo continuado mesmo após consequências negativas;
- priorização do consumo em detrimento de outras atividades e obrigações;
- aumento da tolerância, ou seja, existe a necessidade beber cada vez mais para ter o mesmo efeito que doses menores proporcionavam;
- na ausência de ingestão, sintomas de abstinência como tremores, sudorese e ansiedade.
Um grande valor social foi atribuído ao álcool Por isso, é fundamental que as pessoas tenham consciência de que o consumo, mesmo que em doses baixas, pode gerar impactos importantes no corpo. Sabendo disso, quem escolhe beber pode fazer escolhas mais inteligentes e garantir uma relação saudável com substância.

