A Anahp realizou, na última quinta-feira (6), um seminário dedicado à pesquisa clínica — tema estratégico que conecta ciência, gestão e cuidado.
O encontro reuniu líderes hospitalares, governo e indústria para discutir como transformar o potencial de pesquisa dos hospitais brasileiros em resultados concretos para pacientes, instituições e o sistema de saúde.
“A pesquisa clínica no Brasil é um pouco a história de uma estrada esburacada: às vezes anda, às vezes para. Mas chegamos até aqui com avanços importantes e, agora, é hora de acelerar e recuperar o tempo perdido” — Antônio Britto
Durante o evento, foi lançada a cartilha “Como estruturar um centro de pesquisa clínica”, desenvolvida pelo Comitê de Ensino e Pesquisa da Anahp em parceria com a consultoria Equilíbrio, que orienta hospitais sobre os primeiros passos para a criação e consolidação de centros de pesquisa.
Participantes do seminário (ordem alfabética)
- Antônio Britto – diretor-executivo da Anahp
- Antonio Nocchi Kalil – diretor de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Porto Alegre
- Carolina Prando – diretora de Medicina Translacional do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe
- Cíntia Murayama – Head de Operações de Soluções Locais da IQVIA
- Felipe Proenço – secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (Ministério da Saúde)
- Luiz Reis – diretor de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês
- Luiz Rizzo – diretor de Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein
- Meiruze Freitas – diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia da SECTIS (Ministério da Saúde)
- Roberta Almeida – gerente de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Porto Alegre
- Veridiana Penteado – diretora executiva médica e de Desenvolvimento Técnico da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo
A seguir, os principais aprendizados dos quatro painéis do seminário:
1. Por que os melhores hospitais do mundo são Centros Médicos Acadêmicos
A integração entre assistência, ensino e pesquisa foi o eixo central da primeira mesa, conduzida por Luiz Reis (Hospital Sírio-Libanês), com Luiz Rizzo (Einstein Hospital Israelita) e Roberta Almeida (Santa Casa de Porto Alegre). Eles destacaram que a pesquisa clínica é um dos caminhos mais efetivos para ampliar o acesso à inovação, melhorar desfechos e contribuir para a sustentabilidade das instituições.
“Você pode ser bom ou até muito bom; mas se você não gerar conhecimento, nunca será excelente” — Luiz Rizzo
A Santa Casa apresentou um exemplo prático de integração entre ensino, assistência e pesquisa. O centro contribui para a manutenção de equipamentos, formação de 440 residentes médicos e redução do déficit do SUS, de cerca de R$ 15 milhões por mês. O debate reforçou a necessidade de patrocínio da alta liderança e da avaliação do impacto econômico real da pesquisa, considerando não só o retorno financeiro direto, mas também ganhos em retenção de talentos e reputação institucional.
Para aplicar já:
- Integrar pesquisa à estratégia institucional e ao plano assistencial
- Mensurar indicadores tangíveis além da receita direta (retenção, desfechos, reputação)
- Envolver a alta direção e o corpo clínico desde o início dos projetos
- Promover formação contínua e incentivo à produção científica
- Estimular parcerias entre hospitais de diferentes portes
2. Pesquisa clínica como motor da inovação e da ampliação do acesso
Antonio Nocchi Kalil (Santa Casa de Porto Alegre), Cíntia Murayama (IQVIA) e Meiruze Freitas (Ministério da Saúde) estiveram na segunda mesa para discutir a pesquisa clínica como motor de inovação e ferramenta de equidade no acesso à saúde. Eles ressaltaram que o tema deixou de ser um assunto de laboratórios para se tornar estratégia nacional de desenvolvimento em saúde.
“Pesquisa clínica é inovação, mas também é acesso. Para muitos pacientes, é a única oportunidade de tratamento” — Cíntia Murayama
Kalil apresentou a trajetória da Santa Casa, que passou de 26 para 140 estudos ativos em quatro anos, com faturamento anual acima de R$ 3 milhões. Ele também relatou projetos de inteligência artificial para diagnóstico precoce, realizados em parceria com o MIT.
Meiruze Freitas ressaltou que a Lei nº 14.874, de 2024, trouxe previsibilidade e segurança jurídica, aproximando o Brasil dos principais polos de pesquisa do mundo. Segundo ela, o País precisa se reposicionar para ser mais competitivo, e o Plano Nacional de Pesquisa Clínica, em formulação, busca descentralizar e fortalecer novos centros.
“O Brasil precisa se reposicionar para ser mais competitivo em pesquisa clínica” — Meiruze Freitas
Os debatedores também apontaram gargalos com: a falta de CEPs, a dependência de laboratórios estrangeiros e a necessidade de formar profissionais da atenção básica para atuar na captação e no acompanhamento de pacientes após os estudos.
Para aplicar já:
- Implementar centros de pesquisa em novas regiões do país
- Capacitar equipes e redes de atenção básica para apoio a ensaios clínicos
- Modernizar laboratórios e regulamentar o uso de amostras locais
- Fomentar parcerias público-privadas para inovação em saúde
- Adotar inteligência artificial em processos de seleção e análise de dados
3. Pesquisa, ensino e formação de talentos
Com Felipe Proenço (Ministério da Saúde) e Carolina Prando (Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe), o terceiro painel tratou da formação de pesquisadores e da importância da pesquisa clínica como eixo do desenvolvimento de competências.
“A pesquisa é parte da formação em saúde e precisa ser tratada como estratégia de Estado” — Felipe Proenço
Carolina relatou como o Complexo Pequeno Príncipe integra hospital, faculdade e instituto de pesquisa para unir ensino, assistência e ciência. Ela destacou iniciativas como a disciplina de Medicina Baseada em Evidências, a ampliação da iniciação científica e a integração da residência médica com programas de mestrado e doutorado.
Felipe Proenço apresentou as ações do Ministério da Saúde voltadas à valorização da carreira científica: a certificação dos Hospitais de Ensino (Portaria nº 8.033/2024), a expansão das residências, o Cadastro Nacional de Especialistas e as novas Diretrizes Curriculares da Medicina, que reforçam a formação baseada em evidências e inovação.
Para o secretário, formar profissionais com pensamento científico é essencial para um SUS mais sustentável e inovador.
Para aplicar já:
- Incluir pesquisa clínica nos programas de residência e formação técnica
- Criar programas de mentoria e bolsas institucionais para jovens pesquisadores
- Estimular cooperação entre universidades, hospitais e indústria
- Valorizar a docência e a prática científica nas carreiras públicas e privadas
- Integrar as políticas de trabalho, ensino e ciência sob uma mesma estratégia
4. Pesquisa, investimento e sustentabilidade: quais os próximos passos
Encerrando o seminário, Veridiana Penteado, da BP, discutiu o futuro da pesquisa sob a ótica da governança, investimento e retorno social.
“Sustentabilidade não é apenas financeira. É o impacto social e assistencial que justifica o investimento em pesquisa” — Veridiana Penteado
Veridiana lembrou que muitos hospitais ainda veem a pesquisa como atividade paralela à assistência, e que é preciso uma mudança de cultura. Sustentabilidade, segundo ela, depende da decisão estratégica da alta liderança e da criação de modelos de governança que traduzam o valor da pesquisa em indicadores científicos, econômicos e sociais.
A executiva destacou que a pesquisa gera retorno em receita, retenção de talentos, reputação e qualidade assistencial. Defendeu também a criação de fundos institucionais, o reconhecimento dos pesquisadores e a diversificação das fontes de financiamento, incluindo indústria, agências públicas e capital filantrópico.
Para aplicar já:
- Criar modelos de governança e indicadores de retorno social
- Inserir a pesquisa clínica nas pautas do conselho e da diretoria
- Estabelecer fundos institucionais de fomento à pesquisa
- Reconhecer e incentivar pesquisadores nas políticas internas
- Atrair capital filantrópico e parcerias internacionais
Pesquisa clínica no Brasil
A pesquisa clínica eleva padrões assistenciais, atrai investimentos e amplia o acesso à inovação. O seminário mostrou que o Brasil vive um ponto de virada com marco legal, infraestrutura crescente e instituições dispostas a liderar essa agenda.
Para consolidar esse movimento, é preciso:
- Governança engajada e visão de longo prazo
- Descentralização e expansão territorial da pesquisa
- Integração entre ensino, assistência e ciência
- Indicadores de impacto científico, econômico e social
- Sustentabilidade institucional conectando ciência e gestão