Jornada Digital | Cultura justa e direitos do paciente: do conceito à prática assistencial

Nesta quinta-feira (14), a Jornada Digital – Qualidade e Segurança, realizada pela Anahp em parceria com a Wolters Kluwer, reuniu especialistas para discutir “Cultura justa e os direitos do paciente”. O encontro apresentou fundamentos, experiências e estratégias para alinhar segurança, ética e respeito tanto ao paciente quanto às equipes assistenciais.

Participaram:

  • Aline Albuquerque, diretora do Instituto Brasileiro de Direito do Paciente
  • Cristina Mizoi, diretora assistencial de Oncologia na Rede Américas
  • Juliana Amaral, gerente de Práticas Assistenciais e Educação Corporativa no Hospital Alemão Oswaldo Cruz
  • Mediação: Ana Lúcia Abrahão, superintendente assistencial do Hcor

Veja os principais pontos:

Direitos do paciente

Para Aline Albuquerque, “defender direito do paciente é defender cultura justa, não punitivista”. Ela defendeu a substituição do modelo jurídico brasileiro, marcado pela litigância adversarial, por formas resolutivas dentro do próprio sistema de saúde.

“Quando acontece um evento adverso, o que pacientes e familiares desejam é: informação, pedido de desculpas, saber o que será feito para evitar recorrência e, por último, reparação financeira” – Aline Albuquerque

Na prática: transformar cartas e manuais em processos efetivos – protocolos de segunda opinião, canais resolutivos para conflitos e disclosure estruturado.

Cultura de segurança e “dano zero”

Cristina Mizoi ressaltou que não há cultura justa sem cultura de segurança, e que esta depende do envolvimento ativo da alta liderança.

Organizações de alta confiabilidade perseguem o “dano zero” com notificações amplas, análise de causa raiz (ex.: Protocolo de Londres), apoio à segunda vítima, aplicação de matriz de cultura justa e disclosure transparente.

“Por que não perseguirmos o dano zero? Tudo começa com as notificações” – Cristina Mizoi

Na prática: criar canais seguros para notificação, devolver resultados às equipes, envolver a alta direção nas decisões e treinar líderes para agir diante de riscos.

A experiência do HAOC

Juliana Amaral apresentou a jornada do Hospital Alemão Oswaldo Cruz na implantação da cultura justa, estruturada sobre o núcleo de segurança (RDC 36), capacitação intensiva de líderes (15h) e uso de matriz de responsabilidade.

“Precisamos olhar para o comportamento de risco e não para o dano. Na cultura de aprendizado, a pergunta é ‘o que deu errado?’ e não ‘quem errou?’.” – Juliana Amaral

Ela defendeu a responsabilização compartilhada – do sistema e do indivíduo – e a inclusão das equipes na construção de planos de ação.

Na prática: formar líderes, revisar fluxos com foco em riscos, incluir equipes nas soluções e padronizar critérios de análise e resposta.

Cultura restaurativa

Aline explicou que a cultura restaurativa vai além da justa: não foca na conduta ou no dano, mas nas necessidades das vítimas – pacientes, familiares e profissionais.

“A cultura justa é um degrau; a cultura restaurativa é um degrau acima” – Aline Albuquerque

Baseada em métodos como círculos restaurativos e conferências familiares, exige alto nível de maturidade organizacional e cultural.

Na prática: após consolidar a cultura justa, incorporar práticas restaurativas para reconstruir relações e confiança.

Direitos, deveres e comportamentos disruptivos

Cristina Mizoi e Juliana Amaral defenderam a publicação clara de direitos e deveres de pacientes, familiares e acompanhantes, com fluxos para lidar com comportamentos disruptivos – do diálogo educativo à suspensão de atendimento eletivo. Esses fluxos precisam do respaldo da alta liderança e apoio jurídico, reconhecendo que, muitas vezes, comportamentos inadequados têm relação com falhas de processo.

“Isso explica, mas não justifica alguns comportamentos” – Juliana Amaral

Na prática: combinar protocolos de contenção (códigos branco, cinza etc.) com abordagem educativa, garantindo ambiente seguro para pacientes e equipes.

Desafios para superar a cultura punitivista

Aline Albuquerque apontou como barreira: a formação jurídica ainda punitivista, a falta de diálogo entre saúde e direito e o medo da litigância. Para avançar, é preciso integrar qualidade, segurança e direitos do paciente à estratégia institucional e às políticas públicas.

“Não é possível cuidado de qualidade sem respeito aos direitos dos pacientes” – Aline Albuquerque

Mizoi e Amaral reforçaram que segurança está diretamente ligada à sustentabilidade financeira: prevenir riscos reduz custos da não qualidade e evita litigância.

Na prática: inserir segurança e cultura justa no planejamento estratégico, medir impacto, vincular resultados financeiros e celebrar barreiras que evitam danos.

Operadoras, inovação e governança

As palestrantes reconheceram que operadoras podem apoiar a cultura de segurança ao provocar debates técnicos a partir de auditorias qualificadas. Também abordaram a IA como ferramenta promissora, desde que usada com cautela, governança e capacitação de profissionais.

“A tecnologia é muito bem-vinda, é um aliado para a segurança — mas como ela está sendo utilizada e por quem pode ser deletério” – Cristina Mizoi

Na prática: manter diálogo construtivo com operadoras, usar IA para apoio e não substituição do cuidado humano.

Assista ao evento na íntegra:

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