Café da Manhã | Hipotermia terapêutica evita mortes e sequelas graves por asfixia perinatal

No Café da Manhã da Anahp desta terça-feira (12), realizado em parceria com a BD, Maurício Magalhães, chefe do Serviço de Neonatologia da Santa Casa de São Paulo e diretor científico da PBSF – Protecting Brains & Saving Futures –, trouxe a seguinte mensagem: a asfixia perinatal (falta de oxigenação no nascimento) é uma das principais causas de mortalidade e sequelas neurológicas em recém-nascidos, mas tem abordagem eficaz quando reconhecida e tratada rapidamente.

O médico reforçou que a hipotermia neuroprotetora, iniciada nas primeiras horas de vida e mantida por 72 horas entre 33°C e 34°C, é hoje o único método comprovado para reduzir danos neurológicos e aumentar a sobrevida com qualidade. “A lesão cerebral é evolutiva. Temos uma janela de até seis horas para mudar completamente o prognóstico dessa criança”.

Como funciona a lesão cerebral

Após a falta de oxigenação, há uma fase inicial de injúria, seguida por um período de aparente estabilidade. Entre 6 e 72 horas, ocorre a chamada segunda onda de lesão, com inflamação e morte de neurônios. “É nessa fase que conseguimos intervir. Se perdermos essa janela, a lesão se instala”, explica Magalhães.

Confira os principais pontos abordados no encontro:

Alta incidência e custos

A asfixia perinatal é um problema de grande impacto clínico e econômico, com números que impressionam.

  • 1,15 milhão de casos por ano no mundo
  • 233 mil crianças por ano com lesão cerebral grave no mundo
  • Responsável por 23% das mortes neonatais no mundo
  • 72% das crianças que sofrem asfixia desenvolvem lesão cerebral
  • R$ 43 bilhões/ano no Brasil em benefícios pagos a pessoas com deficiência — grande parte associada à asfixia perinatal
  • US$ 67 bilhões/ano nos EUA em custos de vida para crianças com deficiências incapacitantes
  • Crianças com deficiência severa demandam custos de assistência até 150 vezes maiores, comparadas a crianças saudáveis

“O impacto futuro é enorme, mas o impacto presente, durante a internação, também é muito relevante. Fazer o tratamento certo significa menos tempo de UTI e mais alta para casa, mamando no peito.”

Reconhecimento rápido é fundamental

O diagnóstico envolve avaliação clínica, gasometria de cordão umbilical e exame neurológico específico (escala de Sarnat), além de monitoramento cerebral contínuo.

“Não dá para se basear só no Apgar. Precisamos de dados objetivos, como o pH do sangue do cordão, para decidir rápido.”

Hipotermia: protocolo e resultados

O resfriamento deve começar o quanto antes – idealmente antes de três horas de vida – e ser feito de forma contínua, com controle de temperatura preciso.

  • 65% mais chance de sobrevida sem lesão
  • 32% menos risco de dano neurológico grave
  • 61% mais sobrevida livre de paralisia cerebral

“Tenho pacientes que, sem a hipotermia, estariam em cadeira de rodas; com o tratamento, hoje estão correndo e brincando.”

Precisão é decisiva

Equipamentos servo-controlados, como o Arctic Sun da BD, permitem manter a temperatura estável, evitando oscilações perigosas que podem gerar arritmias, insuficiência renal e agravamento da lesão.

“A precisão do controle de temperatura influencia diretamente a extensão da neuroproteção. Oscilar é perder proteção.”

Monitoramento contínuo evita lesões ocultas

Mais de 80% das convulsões nesses casos não têm sinais visíveis e só são detectadas por eletroencefalograma contínuo. Monitoramento multimodal e telemedicina permitem atuação imediata.

“50% das crianças que estavam com convulsão clínica, você medicou para a convulsão clínica, mas continua convulsionando e vai lesando o cérebro.”

Cuidados centrados na família

Mesmo na UTI, é possível manter o contato pele a pele e estimular o vínculo.

“Colocar o bebê no colo da mãe, mesmo durante a hipotermia, é terapêutico — para o cérebro e para o coração da família.”

Conscientização e expansão

O Setembro Verde Esperança, campanha da Sociedade Brasileira de Pediatria e parceiros, busca alertar profissionais e sociedade sobre a asfixia perinatal e seu tratamento.

“Todos os hospitais que atendem parto precisam estar preparados. É um tratamento que não pode ser para uns e não para outros.”

Conclusão

A asfixia perinatal, embora grave e de alto impacto, não é uma sentença definitiva. Com diagnóstico imediato, uso rigoroso da hipotermia neuroprotetora e monitoramento contínuo, é possível salvar vidas e garantir que as crianças cresçam com qualidade, preservando seu potencial e reduzindo o peso econômico e social para famílias e o sistema de saúde.

“Asfixia perinatal existe, mas o que é mais importante é saber que tem tratamento. Podemos fazer algo por essa criança e por essa família – e temos seis horas para começar.”

Assista ao evento na íntegra:

Compartilhe

Você também pode gostar: