A Anahp realizou nesta terça-feira (25) mais uma edição do Café da Manhã, desta vez em parceria com a Philips, para discutir um dos temas mais urgentes e estruturantes da agenda de gestão hospitalar: a Reforma Tributária sobre o consumo, que entra em fase prática já em janeiro de 2026.
Palestrantes:
- André Piovesan, gerente de Tributos Indiretos da Philips para América Latina
- Allan Bruzulatto, líder regional da Philips para América Latina
O encontro reuniu profissionais de áreas financeiras, jurídicas e de tecnologia dos hospitais para entender, de forma objetiva e aplicada, o que muda na operação, na precificação, nos sistemas e no fluxo de caixa das instituições diante da chegada da CBS e do IBS.
Principais pontos:
Por que o Brasil precisou reformar e o que isso muda tudo para os hospitais
O País convive hoje com um sistema “caótico”, fragmentado em cinco tributos diferentes (PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS), o que gera alta complexidade, distorções competitivas e disputas com discussões desnecessárias sobre a natureza tributária de produtos simples, de chinelos a bombons de chocolate.
A reforma cria dois novos tributos:
- CBS (federal): substitui PIS, Cofins e IPI
- IBS (estadual/municipal): substitui ICMS e ISS
A regra passa a ser:
- base ampliada,
- alíquota única no destino,
- cálculo por fora,
- e não cumulatividade plena.
“O Brasil se organiza hoje mais pela tributação do que pela eficiência econômica. A reforma tenta corrigir isso” – André Piovesan
O que muda já em 2026: obrigação acessória será mais importante do que pagar imposto
A prioridade das empresas, inclusive hospitais, em 2026 será:
- calcular a CBS e o IBS com alíquota-teste de 1%,
- destacar esses tributos na nota fiscal,
- sem necessidade de pagamento.
O governo usará esses dados para calibrar as futuras alíquotas reais.
“Se não destacar, a Receita pode notificar. Esse é o grande trabalho das empresas em 2026” – André Piovesan
A transição será longa e mais complexa antes de simplificar
A transição foi comparada a “trocar o pneu com o carro andando”:
- 2026: alíquota teste (1%), sem pagamento
- 2027: CBS entra com alíquota cheia; PIS/Cofins extintos
- 2029 a 2033: IBS cresce gradualmente enquanto ICMS e ISS desaparecem
- 2033: novo sistema 100% implementado
Em vários anos, empresas conviverão com dois sistemas tributários em paralelo, exigindo atenção contínua.
Saúde terá alíquotas reduzidas, mas manutenção, software e peças ficam fora
A Lei Complementar 214 determinou:
- Serviços de saúde, planos e medicamentos: redução de 60%
- 17 dispositivos médicos (como ressonância, tomógrafo, ultrassom): redução de 100%
Mas itens essenciais ao dia a dia hospitalar ficam de fora das reduções:
- manutenção de equipamentos,
- partes e peças,
- softwares (como sistemas de gestão Tasy).
“Isso gera impacto relevante. Tentamos incluir no Congresso, mas não passou” – André Piovesan
Split payment: o mecanismo mais disruptivo de toda a reforma
Um dos pontos centrais foi a explicação do split payment: mecanismo no qual o banco retém automaticamente o imposto devido no momento do pagamento da nota.
Funcionamento:
- A empresa B paga a nota da empresa A.
- O sistema bancário consulta Receita/Comitê Gestor.
- Se o imposto não estiver pago, o banco separa o valor e envia ao governo.
- A empresa recebe apenas o líquido.
O sistema terá duas versões:
- split inteligente: retém o imposto bruto;
- split superinteligente: compensa créditos e cobra apenas a diferença.
“Se isso funcionar como prometido, reduz drasticamente a sonegação” – André Piovesan
O início pretendido: 2027, opcional, apenas para transações B2B.
O impacto real para hospitais: custos, créditos e mudança de paradigma
A reforma introduz uma lógica inédita para o setor: o modelo débito x crédito integral.
- todos os bens e serviços adquiridos para operação passam a gerar crédito,
- o que pode reduzir o custo final, mesmo em situações de aumento nominal da alíquota,
- especialmente em serviços, manutenção e software.
“Será uma mudança gigantesca para áreas tributárias e de compras. Todos terão que aprender a ler preço com crédito” – André Piovesan
Filantrópicos ou sem fins lucrativos: o que muda e o que permanece
O resumo apresentado:
- Imunidade para CBS e IBS → garantida independentemente de SEBAS, desde que a entidade seja sem fins lucrativos e cumpra os requisitos do Art. 14 do CTN.
- Alíquota zero nas aquisições (medicamentos e determinados dispositivos médicos) → exige SEBAS, conforme previsto na Lei Complementar 214.
- Importações realizadas por entidades imunes → também serão isentas dos novos tributos (CBS/IBS).
Novos documentos fiscais: rotinas que nunca existiram no Brasil
A reforma cria:
- nota de crédito,
- nota de débito.
Aplicações:
- pagamento antecipado → nota de débito,
- juros e multa → nota de débito.
“Isso altera processos inteiros. Área fiscal vai ter que conversar com cobrança como nunca conversou”, disse André.
TI vira prioridade absoluta: sem sistema adequado, não há conformidade em 2026
A Philips iniciou seu projeto ainda no primeiro semestre, integrando:
- múltiplos ambientes SAP,
- dezenas de sistemas satélites,
- atualizações no Tasy,
- governança estruturada, reuniões semanais.
“Quem ainda não começou a ajustar sistemas está muito atrasado. Janeiro exige nota com CBS e IBS.” – André Piovesan
Pergunta final: equalização das alíquotas
Na etapa de dúvidas, ficou reforçado que:
- todos os serviços entram na alíquota-base,
- saúde aplica a redução prevista,
- software permanece na alíquota cheia.
Conclusão
O encontro reforçou que a reforma tributária não representa apenas uma mudança fiscal — é uma mudança estrutural do modelo de negócios. Afeta:
- sistemas,
- precificação,
- contratos,
- compras,
- fluxo de caixa,
- governança,
- e a própria lógica de operação hospitalar.
“Vai piorar antes de melhorar. Mas quem se preparar agora atravessa 2026 com segurança.” – André Piovesan
Confira o evento na íntegra: