
Com 73 anos de história em Campo Grande, o Hospital Adventista do Pênfigo (HAP) é uma instituição que nasceu do encontro entre fé, ciência e compaixão. Embora seja hoje reconhecido nacional e internacionalmente, muitas pessoas ainda desconhecem a origem de seu nome e a profunda missão que acompanha essa trajetória.
A história começa em 1947, quando o pastor adventista Alfredo Barbosa de Souza enfrentou o sofrimento de sua esposa, Áurea, diagnosticada com Pênfigo Foliáceo — uma doença autoimune grave, rara e sem cura conhecida na época. Determinado a ajudá-la, o pastor viajou por diferentes regiões do Brasil e até outros países em busca de tratamento, sem sucesso.
O Pênfigo Foliáceo, também chamado de “Fogo Selvagem”, provoca bolhas que se descamam como folhas, especialmente em áreas expostas ao sol. Embora não seja contagiosa, a doença causava grande estigma e medo, afetando severamente a qualidade de vida dos pacientes.
Durante uma passagem por Campo Grande, Alfredo ouviu sobre um tratamento promissor utilizado em Sidrolândia – cidade a 70 quilômetros da capital -, desenvolvido pelo farmacêutico Isidoro Jamar. O remédio — um concentrado à base de piche e fortificantes — apresentou resultados surpreendentes: Áurea recuperou a saúde e a disposição. A notícia reacendeu no pastor não apenas a esperança, mas um senso de missão.
Hospedado na casa da tradicional família Bernardo Franco Baís, Alfredo conheceu outras pessoas sofrendo com o Pênfigo. Movido pela compaixão, voltou a Sidrolândia, adquiriu mais medicamentos e começou a ajudar voluntariamente quem buscava alívio. O tratamento se mostrou eficaz para muitos, e a notícia se espalhou rapidamente, atraindo doentes de várias regiões.
Contudo, por falta de conhecimento sobre a doença, a Secretaria de Saúde proibiu o atendimento no centro da cidade, temendo contágio. Orientado a buscar outro local, Alfredo encontrou apoio novamente na família Baís, que doou cerca de 40 hectares a 15 km do centro de Campo Grande. Nascia ali, em 1949, o embrião do que se tornaria o Hospital Adventista do Pênfigo.
As primeiras instalações eram simples: casas de madeira e leitos improvisados. Adventistas de várias partes do Brasil se uniram para cuidar dos enfermos. Antes de falecer, o farmacêutico Isidoro Jamar confiou aos adventistas sua fórmula, garantindo a continuidade do tratamento.
Em 1952, o hospital recebeu seu primeiro médico, Dr. Edgar Bentes Rodrigues, e instalou seu primeiro laboratório de análises clínicas. A demanda era tanta que, antes mesmo da inauguração oficial do prédio, o número de pacientes excedia a capacidade. Em 1962, o então Hospital Mato-Grossense do Pênfigo registrou 478 casos tratados, com grande taxa de cura e controle da doença.
A década de 1960 marcou uma revolução no tratamento com a chegada do médico alemão Dr. Günter Hans, que introduziu terapias modernas baseadas em corticoterapia, alinhadas às descobertas científicas da época. Sob sua liderança, o hospital recebeu apoio de organizações filantrópicas internacionais e inaugurou, em 1966, um novo prédio com 60 leitos.
Em 1975, começou o planejamento para transformar o local em um hospital geral. Esse sonho tornou-se realidade em 1982, com a inauguração de uma estrutura moderna, com apartamentos, centro cirúrgico e novos serviços médicos. Foi nessa fase que o nome atual — Hospital Adventista do Pênfigo — foi adotado, ampliando o alcance da instituição para além do tratamento do Pênfigo Foliáceo.
Ao longo das décadas, o HAP modernizou sua infraestrutura, expandiu setores, investiu em novas tecnologias e fortaleceu sua equipe multidisciplinar. O prédio original, antes dedicado exclusivamente aos pacientes com “Fogo Selvagem”, hoje integra o Centro de Vida Saudável e o setor de Dermatologia, que continua oferecendo atendimento filantrópico aos pacientes com Pênfigo, honrando a vocação humanitária da instituição.
Com o objetivo de ampliar o acesso da população, em 2007 o HAP adquiriu o Hospital e Maternidade Pro Matre, hoje HAP – Unidade Centro. Atualmente, essa unidade oferece internações cirúrgicas, cirurgias em diversas especialidades, consultas ambulatoriais e exames de imagem.
Desde 2024, o Hospital Adventista do Pênfigo vive um marco histórico ao tornar-se uma unidade de referência em transplante hepático, realizando mais de 50 procedimentos em apenas um ano. Esse avanço contribuiu significativamente para reduzir a fila de espera do Mato Grosso do Sul e colocou o Estado no ranking nacional de transplantes no início de 2025.
Mas o progresso não parou aí. Além dos transplantes de fígado e córnea, realizados desde 2024, em outubro de 2025 o hospital foi habilitado em três novas modalidades: Rim, Pâncreas, Tecidos musculoesqueléticos.
Com isso, o HAP consolida-se como um Centro de Transplantes de excelência, unindo tradição, inovação e compromisso com a vida. De um pequeno refúgio para pacientes com “Fogo Selvagem” à alta complexidade cirúrgica, o hospital reafirma sua missão: cuidar de pessoas com qualidade, humanidade e fé.