Dr. ChatGPT: quais são os riscos de se consultar com uma IA?

Quando o assunto é saúde, quase metade da população já pediu conselhos para uma IA, que pode ajudar a decifrar a linguagem médica para engajar pacientes. Mas até que ponto é seguro?

Revisor de texto, assistente pessoal, psicólogo, confidente e até “médico de plantão” — basta ver a quantidade de gente tentando fazer consultas com o ChatGPT. Para muitos, as inteligências artificiais generativas já ocupam todos esses papéis: disponíveis 24 horas por dia, sempre prontas para ouvir queixas e oferecer respostas para qualquer tipo de problema. O que deveria ser apenas um recurso de apoio, porém, rapidamente passou a atuar como protagonista.

Para quase metade da população (49%), pedir conselhos para as IAs já faz parte da realidade, segundo pesquisa liderada pela Talk Digital. Outros 58% afirmam usá-las para resolver questões pessoais e emocionais, como fariam com um amigo.

O comportamento digital da geração Z adicionou mais um elemento a essa conta: as buscas no TikTok. Um levantamento global da Adobe, divulgado em 2024, mostrou que 64% dos nascidos entre 1995 e 2010 recorrem à plataforma quando querem encontrar informações online. E, claro, o velho “Dr. Google” continua firme. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que 85,6% dos pacientes relataram buscar informações de saúde online, às vezes antes mesmo de procurar um profissional.

Tanto o uso do Google e das redes sociais quanto da IA generativa tornam evidente a ânsia dos usuários por respostas rápidas. O problema é que essa busca por uma suposta praticidade esbarra em limites claros, escancarados com o uso dos chatbots. Nem toda dúvida médica cabe em uma conversa com uma IA ou nos mecanismos de busca, então até onde podemos confiar nessas ferramentas quando o assunto é saúde?

Quando usar IA na saúde pode ser arriscado

Para o médico sanitarista e pediatra Daniel Becker, que palestrou no Congresso Nacional de Hospitais Privados – Conahp 2025, a linha entre “informação útil” e “informação perigosa” fica mais tênue do que nunca, em grande parte por causa do ambiente caótico das redes sociais.

“As plataformas manipulam a atenção das pessoas com algoritmos que exploram prazer e indignação”, diz.

Com tudo isso em mente, dá para entender por que as IAs generativas ganharam tanto espaço na busca por informações de saúde online. Elas florescem em um ambiente digital que já privilegia respostas rápidas e informações resumidas, exatamente o tipo de consumo ao qual muitos usuários estão habituados. 

E, por serem ferramentas muito acessíveis, disponíveis o tempo todo e capazes de formular respostas bem estruturadas, os chatbots acabam chamando a atenção de quem está buscando orientação rápida.

Mas o risco de consultar uma IA generativa, como ChatGPT e Gemini, para questões de saúde se dá também pelo fato de ela não entender contextos clínicos, gerando respostas imprecisas. Sem a supervisão de um profissional, a IA tende a simplificar problemas complexos e oferecer orientações potencialmente perigosas.

“A grande característica da informação de saúde online é que ela vem descontextualizada. A gente tem que contextualizar a informação e a desinformação ao caso do paciente”, explica o médico. “Cabe a nós, médicos, sermos curadores não só de doenças, mas também de informação.”

Quando a IA na saúde realmente ajuda?

Ao passo que é importante reconhecer os riscos, é impossível ignorar o impacto positivo que as tecnologias de IA podem trazer para a saúde.

Um estudo de 2024 mostra que chatbots podem facilitar a compreensão do paciente ao simplificar a linguagem médica para pessoas de diferentes idades e níveis de escolaridade. Outro estudo, brasileiro, apontou que buscar informações de saúde online pode melhorar a adesão ao tratamento.

No Future Health Index 2025, publicado pela Philips, indica ainda outro aspecto da IA para além das ferramentas como o Chat GPT. Grande parte dos profissionais (88%) acredita que a tecnologia pode ampliar a capacidade de atendimento, enquanto 81% veem potencial para reduzir os tempos de espera. Para 65%, as IAs podem liberar tempo para que os profissionais de saúde aumentem a interação presencial, fortalecendo o vínculo com os pacientes.

Como usar IA na saúde com segurança

A recomendação é usar a inteligência artificial com parcimônia, e sempre como complemento, nunca como substituto de orientação qualificada. Na prática, isso significa:

  • priorizar fontes confiáveis;
  • seguir comunicadores científicos;
  • buscar profissionais de saúde para interpretar informações.

Em resumo, é usar IA apenas para entender melhor, não para diagnosticar ou tratar. Como destaca Becker, esse equilíbrio é essencial. “A IA pode ter potencial, mas não se ela for substituir a presença, a interação, a criação e o raciocínio humano. É não terceirizar a nossa humanidade para o mundo digital”, conclui.

Se você quiser entender ainda mais como a IA já está transformando o cuidado em saúde, vale explorar outros conteúdos do blog Saúde da Saúde. Saiba como a inteligência artificial já está sendo usada na saúde, descubra de que forma ela pode melhorar a sua relação com os médicos, e veja também como a IA traz mais agilidade, eficácia nos tratamentos e suporte às decisões clínicas.

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