Café da Manhã | Da remuneração ao valor: por que mudar o modelo de cuidado é uma transformação de liderança e não apenas de método

A Anahp realizou nesta quinta-feira (27) mais uma edição do Café da Manhã, em parceria com a Sanofi, para discutir um dos movimentos mais transformadores da gestão em saúde: a migração dos modelos tradicionais de remuneração para o cuidado baseado em valor (Value-Based Health Care – VBHC).

Palestrante:
Daniela Medeiros da Silva Reverbel, superintendente executiva da Unimed Porto Alegre

O encontro abordou, de forma direta e aplicada, como resultados clínicos, experiência do paciente e sustentabilidade financeira passam a orientar a organização do cuidado — e por que adotar modelos de valor deixou de ser tendência para se tornar uma necessidade estratégica no setor.

Confira, a seguir, os principais pontos:

Valor como mudança de mentalidade, não de slogan

VBHC não se implementa “da noite para o dia” e, mais do que uma metodologia, o modelo exige uma revisão profunda da forma como o setor compreende custos, riscos e resultados.

“Estamos mudando o mindset da forma como fazemos saúde há décadas. O caminho existe — mas é preciso dar o primeiro passo, e ele precisa ser consistente”
Daniela Reverbel

A agenda de valor só funciona quando hospitais, operadoras e equipes assistenciais passam a trabalhar sob o mesmo entendimento: cuidar melhor reduz desperdícios, melhora experiência e libera recursos para quem mais precisa — e isso exige medir, comparar e retroalimentar processos.

Por que o modelo atual não fecha?

Custo, fragmentação e incentivos desalinhados

O modelo tradicional, baseado em transações e produção, cria três distorções centrais:

  • incentivo ao volume, não ao cuidado certo;
  • fragmentação, com prestadores, operadoras e pacientes atuando sem coordenação;
  • ausência de indicadores clínicos comparáveis, dificultando a análise de efetividade.

Se não sabemos medir, não sabemos melhorarDaniela Reverbel

A pressão crescente por sustentabilidade — somada à demanda por melhores experiências — impulsiona a adoção de modelos construtivos, como pacotes, bundles, pagamento por performance e programas de coordenação.

A experiência de Porto Alegre: como sair da teoria e implementar um modelo completo

A Unimed Porto Alegre estruturou o modelo começando por condições clínicas específicas, seguindo três pilares:

  • definição clara dos episódios de cuidado, com protocolo, fluxos e papéis;
  • medição contínua de desfechos, experiência e custos;
  • remuneração atrelada a performance, com metas e incentivos graduais.

O modelo adotado inclui:

  • três tipos de episódios (pós-operatórios, autolimitados e cirúrgicos),
  • métricas clínicas (melhora da dor, funcionalidade, redução de exames desnecessários),
  • métricas de experiência (satisfação com o desfecho, recomendação do modelo),
  • indicadores de processo (acesso inicial em até 7 dias, assiduidade à fisioterapia).

O dashboard de valor organiza o acompanhamento e orienta os pagamentos de performance conforme faixas de resultado.

Dor lombar como caso real: resultados, ajustes e aprendizado contínuo

A rede já apresenta resultados consistentes no bundle de dor lombar. Os indicadores mostram:

  • melhora da funcionalidade e da dor;
  • satisfação crescente com o desfecho;
  • redução de uso de exames de imagem;
  • indicadores de experiência estáveis;
  • critérios claros para pagamento por performance.

“Valor não é punir quem não entrega. É ajustar, aprender e melhorar o cuidado juntos” — Daniela Reverbel

Alta gestão: o ponto sem o qual nada sustenta

Modelos de cuidado baseado em valor só avançam quando contam com apoio efetivo da alta direção. O sucesso depende de:

  • apoioativo de CEOs, diretores e superintendentes;
  • alinhamento entre áreas clínica, financeira e operacional;
  • comunicação permanente com prestadores e equipes assistenciais;
  • governança formal e metas claras;
  • integração com contratos e estratégia.

“Valor exige liderança, não apenas método” — Daniela Reverbel

Principais barreiras: cultura, dados e alinhamento com prestadores

A transição para VBHC esbarra em desafios conhecidos:

  1. Cultura reativa — equipes acostumadas a tratar eventos, não jornadas
  2. Dados ruins ou desintegrados — inviabilizam comparar e melhorar
  3. Relação tensa entre prestadores e pagadores — atrasa pilotos e acordos

O antídoto está em transparência, governança contínua e acordos bem modelados, com clareza sobre incentivos, responsabilidades e metas.

Por que isso importa para hospitais: valor como estratégia de posicionamento

Hospitais têm papel decisivo na transição para VBHC:

  • concentram grande parte dos custos;
  • influenciam diretamente desfechos e experiência;
  • têm poder real para reorganizar fluxos e condutas;
  • podem se diferenciar por qualidade, previsibilidade e eficiência.

Valor é posicionamento. Quem entrega resultado navega melhor, negocia melhor e cresce com sustentabilidade”- Daniela Reverbel

Conclusão

Migrar para o cuidado baseado em valor não é apenas implantar um bundle — é reconstruir a forma como se cuida, se mede e se financia saúde. O caminho exige liderança, dados, método e persistência, mas gera um ciclo virtuoso raro no setor: melhor desfecho, melhor experiência e melhor uso dos recursos.

Assista ao evento na íntegra:

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