
Imagine o cenário: um homem idoso chega ao hospital com pneumonia. A equipe médica dá o diagnóstico e, durante a investigação, percebe alterações na pressão arterial do paciente. O profissional de saúde, então, prescreve medicações para controlar esses sintomas e pede para o paciente voltar em três meses.
O caso parece resolvido. Mas ele nunca mais volta. Talvez tenha perdido o contato do médico, talvez nem lembre o nome dele, talvez não sinta desconforto e ache que não precisa agendar o retorno. O cuidado, então, se interrompe.
“O trabalho não pode terminar aí”, defendeu o médico, cientista e oncologista Drauzio Varella, em sua palestra no Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp), em outubro. “O hospital tem que ser uma comunidade. Hoje, é possível estabelecer uma rede de controle em que esse contato persista. Você não pode funcionar só como um pronto-socorro que resolveu aquele problema”, afirmou.
Atenção primária: o pilar que transforma o cuidado em continuidade
Esse exemplo ilustra um dos principais desafios da atenção primária à saúde no Brasil e, de forma crescente, da saúde suplementar. O País envelheceu e, com isso, doenças crônicas como hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca e tantas outras têm se tornado a maior parte da demanda. Essas são condições que exigem acompanhamento contínuo, proximidade e integração.
É aí que entra a atenção primária: transformar o cuidado episódico em relações duradouras, capazes de prevenir complicações, reduzir internações e promover qualidade de vida.
Na avaliação de Drauzio Varella, a lógica de esperar as pessoas adoecerem para agir já não se sustenta. É um modelo que consome recursos, sobrecarrega hospitais e não resolve o problema central: a falta de acompanhamento contínuo.
“Esse sistema não tem chance nenhuma de dar certo, porque não vai haver dinheiro suficiente. A atuação do hospital não pode se limitar ao pronto-socorro e não pode se limitar à internação. Do que nós precisamos? Atenção primária. Isso é fundamental”, reforçou.
Esse primeiro nível de atenção abrange promoção de saúde, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção do bem-estar. Quando a atenção primária não funciona, o resultado é conhecido: superlotação hospitalar e aumento dos custos.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 85% dos problemas de saúde poderiam ser resolvidos sem a necessidade de pronto-socorro. “E essa cultura que criamos nos prontos-socorros funciona especialmente onde falha a atenção à saúde”, completou o médico.
O SUS já demonstrou o potencial dessa abordagem. A Estratégia de Saúde da Família alcança cerca de dois terços dos lares brasileiros, com equipes multiprofissionais e 240 mil agentes comunitários que conhecem a realidade local. Essa experiência mostra que proximidade, vínculo e prevenção são mais eficientes do que intervenções isoladas.
Educação também é atenção primária
Falar em atenção primária também é falar em educação. Não apenas a educação formal dos profissionais de saúde, mas a construção de uma cultura de autocuidado que começa no cotidiano das pessoas. “Não dá para passar o dia inteiro sentado, comendo tudo o que te oferecem”, provocou o médico, ao discutir o impacto dos hábitos modernos sobre as doenças crônicas.
Essa dimensão educativa da atenção primária é o que sustenta mudanças duradouras. Embora parte da população ainda enfrente barreiras de acesso à alimentação saudável, outra grande parte nunca teve tantas opções à disposição, como frutas, verduras e alimentos frescos.
“Hoje, uma pessoa de classe média no Brasil tem uma dieta muito melhor do ponto de vista nutricional do que os nobres da Idade Média. E, mesmo assim, estamos indo para o caminho dos ultraprocessados”, refletiu.
A educação, defende o médico, é um dos pilares da atenção primária à saúde, capaz de transformar comportamentos e reduzir o surgimento de doenças crônicas. O exemplo do tabagismo mostra isso: sem grandes campanhas governamentais, mas com políticas consistentes, o País reduziu drasticamente o consumo de cigarros. “Comportamentos dão trabalho, não são mudados de um dia para o outro, mas mudam. Com a educação, a gente consegue mudar”, reforça.
Então, qual é o meu papel nisso tudo?
Se por um lado a organização dos serviços e a educação popular são determinantes, há também um papel ativo das pessoas em trazer a atenção primária para sua realidade.
O primeiro passo é escolher um serviço ou profissional de referência, seja uma Unidade Básica de Saúde (UBS, o antigo “postinho”) ou seu médico de escolha, via plano de saúde ou particular. O ideal é manter uma relação contínua, mesmo na ausência de sintomas, e comprometer-se (consigo mesmo e com o profissional) a fazer check-ups periódicos. Esse vínculo favorece a continuidade do cuidado.
E fora do consultório, todo mundo pode se ajudar: praticar atividades físicas, optar por alimentos naturais e variados, não fumar, maneirar no consumo de álcool e dormir bem. Se houver qualquer problema em seguir essas recomendações, o profissional de saúde também pode ajudar.

