Homens jovens, maduros, trans e cis: o que o Novembro Azul nos ensina sobre saúde

O Novembro Azul já não fala apenas sobre o câncer de próstata. A campanha evoluiu e, hoje, representa o Mês de Conscientização sobre a Saúde do Homem.

E faz todo sentido: embora o câncer de próstata ainda seja o segundo tipo mais comum entre os homens brasileiros, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) – atrás apenas do câncer de pele não melanoma -, outras questões da saúde também despertam preocupação. São eles, por exemplo, as maiores vítimas das mortes por cardiopatias isquêmicas, com risco 75% maior que o das mulheres, segundo o Ministério da Saúde. 

Mesmo diante desses números, a resistência masculina em buscar ajuda médica ainda é a principal barreira à prevenção e ao diagnóstico precoce. Entre os que têm mais de 40 anos, apenas 32% dizem se preocupar muito com a própria saúde, e 46% só vão ao médico quando sentem algo, conforme levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)

“É importante ter um mês dedicado a isso, porque é um lembrete para o homem de que prevenir é melhor do que correr atrás de algum diagnóstico tardio”, afirma Arie Carneiro, médico urologista do Einstein Hospital Israelita.

Mas há um dado que inspira esperança. Um estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida mostra que 83% dos homens reconhecem que precisam cuidar melhor da própria saúde. Arie Carneiro atribui o dado ao aumento da expectativa de vida, que hoje ultrapassa os 75 anos, segundo o IBGE. “Com a longevidade do homem, ele também quer longevidade de qualidade de vida. E quer manter tanto a parte mental quanto a parte física organizadas. Então, tem buscado ajuda para manter essa qualidade de vida e tem pensado no envelhecimento saudável”, diz.

A tecnologia também é uma aliada importante nesse processo. Tratamentos modernos e cada vez menos invasivos para o câncer de próstata, que preservam melhor a continência urinária e a função erétil, ajudam a reduzir o medo e incentivam os homens a investigar a própria saúde.

Outro fator que contribui para essa mudança é a quebra de tabus. “Hoje, a gente vê o homem preocupado com a saúde, preocupado em se cuidar, e ele não se importa mais em fazer o toque retal. Entende que isso é um procedimento importante para a saúde. A quebra desse mito tem feito com que os homens procurem a gente cada vez mais”, continua o médico.

Câncer de próstata no topo da lista

O Novembro Azul nasceu como uma campanha voltada exclusivamente para o câncer de próstata. A proposta inicial era alertar os homens sobre a importância do rastreamento e do diagnóstico precoce – segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, quando o tumor é identificado em estágio inicial, as chances de cura chegam a 90%. 

Com o tempo, essa mobilização acabou se transformando no cuidado integral com a saúde masculina.

“O câncer de próstata é uma das maiores preocupações do movimento, porque é uma doença só masculina. Mas a gente percebeu que essa campanha foi uma porta de entrada do paciente no médico. Quando ele vai ao urologista fazer um check-up da próstata, o profissional mede a pressão, verifica a glicemia e acaba cuidando da saúde global do homem”, detalha Carneiro.

Mesmo assim, o câncer de próstata continua no topo da lista de desafios. Apenas 56% dos homens com 50 anos ou mais já realizaram o exame de toque retal, enquanto 40% afirmam nunca tê-lo feito, segundo pesquisa do Datafolha.

Particularidades da saúde do homem

As prioridades de cuidado com o corpo mudam ao longo da vida. Para quem nasce com anatomia masculina, é importante olhar para os órgãos característicos desde cedo.

Nos primeiros anos, por exemplo, é fundamental observar se o testículo do bebê está presente na bolsa escrotal. “O ideal é fazer esse diagnóstico antes de um ano de vida, porque, se não tratado, pode aumentar o risco de infertilidade e de câncer”, explica o urologista.

Na infância, a atenção se volta à fimose, condição que pode favorecer infecções se não for acompanhada por um médico. Já na adolescência, o foco passa a ser a orientação sobre a vida sexual e a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. É também nessa fase que o jovem deve aprender a realizar o autoexame dos testículos.

Na vida adulta, o acompanhamento médico se torna um ponto-chave para a saúde, englobando o planejamento de longo prazo. “É o momento de fazer um check-up geral da saúde masculina, avaliar o autoexame, discutir disfunção erétil, reposição de testosterona e o uso de suplementos alimentares, que hoje está banalizado”, orienta Carneiro.

A partir dos 50 anos, a recomendação é que o homem mantenha uma avaliação anual, ampliando o olhar para a saúde e não apenas para o câncer de próstata.

Novembro Azul para pessoas trans

O mês também é um lembrete importante para pessoas trans, que ficam muitas vezes à margem das campanhas de prevenção. O cuidado com a saúde deve levar em conta a anatomia e as particularidades de cada corpo, e não apenas a identidade de gênero.

No caso das mulheres trans – pessoas designadas homens ao nascer, mas cuja identidade de gênero é feminina – é fundamental lembrar que elas ainda têm estruturas do corpo masculino. “Essas mulheres precisam fazer um seguimento de acordo com a rotina da população masculina. Mesmo aquelas pacientes que fizeram a cirurgia para a redesignação sexual permanecem com a próstata”, completa o especialista.

Já os homens trans – pessoas designadas mulheres ao nascer, mas com identidade de gênero masculina – devem seguir as recomendações de rastreio da população feminina, como exames preventivos relacionados ao câncer de mama e aos órgãos ginecológicos.

Pessoas trans que temem constrangimentos podem buscar serviços de saúde inclusivos, que respeitam o nome social e a identidade de gênero, ou clínicas especializadas em saúde LGBTQIA+. Também é possível conversar previamente com o profissional para garantir um atendimento acolhedor. O essencial é que ninguém se perca no caminho do cuidado.

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