Na última terça-feira (29), a Anahp realizou mais uma edição do seu Café da Manhã, desta vez em parceria com a Danone, multinacional líder em alimentos e bebidas, com base em categorias voltadas para a saúde e de rápido crescimento. O encontro reuniu especialistas para discutir como a nutrição, quando aplicada com estratégia, pode impactar positivamente os custos e os desfechos clínicos no ambiente hospitalar. O debate teve como foco a nutrieconomia, conceito que integra eficácia nutricional, qualidade do cuidado e sustentabilidade financeira.
Participaram:
– Marisa Bailer, coordenadora de nutrição do Hospital Samaritano Higienópolis
– Matheus Luiz, analista de geração de evidências em economia da saúde na Danone
– Claudio Tafla, gerente de gestão de saúde e risco na Alper Seguros.
Principais pontos:
Sustentabilidade com eficiência nutricional
A busca por sustentabilidade no setor hospitalar passa, necessariamente, por uma revisão crítica dos processos e pelo combate ao desperdício, inclusive no cuidado nutricional. A nutrição, tradicionalmente vista como centro de custo, pode se tornar um ganho indireto quando bem conduzida.
“A terapia nutricional assertiva desde o início previne complicações, acelera a alta e impacta na redução de reinternações.” – Marisa Bailer
Na prática: otimizar processos assistenciais, usar tecnologia para reduzir desperdícios e incorporar a nutrição como parte do plano terapêutico desde o primeiro dia de internação.
Suplementação oral reduz custos e reinternações
O Hospital Samaritano conduziu um estudo retrospectivo com 235 pacientes adultos, avaliando o impacto da suplementação oral precoce. Os resultados mostraram que, mesmo com maior gravidade clínica, o grupo que iniciou a suplementação em até 48 horas apresentou redução de 23% no custo total (internação e reinternação).
“Mesmo com mais tempo de UTI, pacientes com suplementação precoce custaram menos. O impacto é real.” – Marisa Bailer
Na prática: priorizar a triagem nutricional precoce e implementar protocolos claros para início da suplementação oral, especialmente em idosos, pacientes oncológicos e com risco de lesão por pressão.
A nutrição como tecnologia em saúde
A nutrição deve ser considerada uma tecnologia em saúde e avaliada com base em dados reais, assim como medicamentos e dispositivos médicos. No entanto, os estudos nessa área exigem metodologias específicas, pois não há placebo possível nem populações homogêneas.
“Estudos de mundo real mostram que um paciente bem nutrido custa menos. É hora de incluir a nutrição na avaliação de tecnologias em saúde.” – Matheus Luiz
Na prática: utilizar bases de dados clínicos para estruturar análises econômicas robustas e fortalecer a tomada de decisão sobre políticas nutricionais hospitalares.
Prioridade na gestão
A suplementação nutricional não deve ser vista como detalhe assistencial, mas como uma escolha de gestão com impacto direto no orçamento.
“Se eu não atuo sobre um problema que responde por até 60% do meu custo hospitalar, estou falhando como gestor.” – Claudio Tafla
Na prática: tratar a suplementação precoce como uma intervenção estratégica e incluir seu protocolo entre os critérios de qualidade e eficiência monitorados pela gestão.
Protocolos claros e equipe especializada
O estudo apontou que falhas na aplicação do protocolo nutricional ocorreram principalmente quando o atendimento foi feito por nutricionistas generalistas. Já os profissionais com expertise clínica específica (geriatria, oncologia, paciente crítico) aplicaram corretamente as indicações.
“Protocolos podem ser perfeitos no papel, mas falham na prática sem equipe treinada e monitoramento contínuo.” – Marisa Bailer
Na prática: garantir formação contínua e especialização da equipe de nutrição, além de padronizar a triagem e o uso de suplementos com base em critérios objetivos.
6. Cultura e educação
Para que a nutrição seja reconhecida como parte do tratamento, é essencial que todos os profissionais compreendam seu papel terapêutico. A baixa adesão, muitas vezes, vem da banalização da suplementação.
“A suplementação não é um ‘todinho’. Se ela não fizer sentido para quem entrega, aplica ou prescreve, não vai funcionar.” – Marisa Bailer
Na prática: promover capacitação contínua e integrar a nutrição aos protocolos assistenciais de forma colaborativa e interdisciplinar.
Corresponsabilidade do sistema
Não há avanço possível sem negociação aberta entre os diferentes elos do sistema. É preciso sair do modelo de soma zero, onde o ganho de um implica na perda do outro, com empatia, protocolos validados e abertura para novos formatos de remuneração.
“Se eu pedir para alguém mudar sua conduta sem estar disposto a mudar nada do meu lado, não é negociação, é imposição. E isso não funciona.” – Claudio Tafla
Na prática: estruturar conversas baseadas em evidência, com clareza nos resultados esperados e disposição para testar modelos de remuneração baseados em valor.
Conclusão
O Café da Manhã mostrou que a nutrição hospitalar, quando tratada como tecnologia de saúde, tem poder transformador. O início precoce da suplementação oral reduz custos, melhora desfechos clínicos e fortalece a sustentabilidade hospitalar. Dessa maneira, a nutrição se revela uma alavanca estratégica, desde que acompanhada de dados, protocolos e decisões baseadas em evidência.
Assista à edição na íntegra: