O Anahp Ao Vivo realizado junto da consultoria Arquitetos da Saúde, realizado nesta terça-feira (25), apresentou uma análise dos últimos dados econômico-financeiros divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), referentes ao quarto trimestre de 2024. O debate abordou a recuperação expressiva das operadoras de planos de saúde no ano passado, mas também um agravamento do desequilíbrio com os hospitais, principalmente por conta das glosas e dos prazos de pagamento alongados.
Participaram do encontro:
- Adriano Londres, consultor da Arquitetos da Saúde
- Luiz Feitoza, consultor da Arquitetos da Saúde
- Antônio Britto, diretor-executivo da Anahp (moderação)
Confira abaixo os principais pontos do debate.
Bons resultados das operadoras
Com lucro líquido operacional de 3,39% e sinistralidade média em 83%, o desempenho das operadoras em 2024 se aproximou dos patamares pré-pandemia. A Variação do Custo Médico Hospitalar (VCMH) também foi considerada positiva, encerrando o ano em 6,37%.
“A sinistralidade está ajustada e os resultados operacionais melhoraram. A dúvida agora é: a que custo e com quais consequências?” – Luiz Feitoza

Segundo os especialistas, o bom desempenho deve influenciar a moderação dos reajustes dos planos coletivos, que já vinham caindo ao longo do ano.
Ritmo de crescimento desacelera
O setor ganhou apenas 400 mil novos beneficiários em 2024, abaixo do registrado nos três anos anteriores. A maior parte da expansão ocorreu via planos coletivos por adesão de 1 a 5 vidas — nicho que começa a dar sinais de saturação.
“É um ponto crítico, pois o setor depende do ingresso constante de novos beneficiários para se sustentar.” – Luiz Feitoza
O consultor destacou ainda que a abertura de microempresas, motor desse tipo de contrato, também perdeu fôlego, sinalizando limites para essa estratégia.
Glosas em alta
Em contraste com a melhora das operadoras, os hospitais enfrentam um cenário preocupante. A taxa de glosas saltou de 11,8% em 2023 para 15,89% em 2024 — a maior já registrada pela Anahp (saiba mais sobre pesquisa realizada com associados).
“Quando a operadora melhora, a lógica esperada seria aliviar os hospitais. Mas foi o contrário: a glosa aumentou. E pior: de tudo que é glosado, só 1,96% se sustenta no fim da discussão.” – Antônio Britto

Na prática, os hospitais são forçados a financiar parte dos custos enquanto aguardam a resolução dos processos, o que impacta diretamente o fluxo de caixa e os investimentos.
Investimento travado e risco à assistência
Com mais glosas e menos previsibilidade, 41% dos hospitais reduziram ou postergaram investimentos, segundo dados da Anahp. Isso impacta diretamente a expansão de leitos, aquisição de equipamentos e a abertura de novas unidades de UTI, por exemplo.

“Deixamos de expandir capacidade num momento em que a taxa de ocupação segue alta. É um problema de acesso que pode aparecer logo adiante.” – Adriano Londres
A preocupação maior é que, em meio à alta ocupação dos hospitais, qualquer restrição ao investimento se traduz rapidamente em gargalos assistenciais.
Pagamento por pacote e rede própria não aliviam glosas
Os modelos alternativos ao fee-for-service ganharam força em 2024. Pagamentos por pacote chegaram a representar 12% das despesas das operadoras, e a atuação por rede própria também avançou.
“Se estamos migrando para modelos mais previsíveis, com menos variabilidade, por que a glosa está aumentando? É um contrassenso.” – Adriano Londres
A expectativa de que os novos modelos trariam maior previsibilidade e menos disputas administrativas não se confirmou na prática.
Reservas técnicas em alta
As operadoras continuaram reforçando suas provisões técnicas (PSL e PEONA), mesmo em um cenário de custos assistenciais mais controlados. Isso levanta questionamentos sobre o uso estratégico dessas reservas.
“Estamos vendo uma postura cautelosa das operadoras, mas é preciso entender até que ponto essa cautela é justificada.” – Luiz Feitoza
A manutenção de altas reservas afeta o resultado operacional e, indiretamente, pode influenciar a relação com os prestadores.
Propostas regulatórias para 2025
A ANS discute mudanças estruturais como o novo modelo de reajuste para contratos de até mil vidas, regras para coparticipação, reativação dos planos individuais com reajuste mais flexível e até a criação de um plano ambulatorial sem urgência e emergência.
“Essas reformas ainda enfrentam resistência e tramitam lentamente. Nada deve ser implementado no curto prazo.” – Antônio Britto
O cenário político-institucional contribui para a morosidade na implementação das mudanças.
Impacto da verticalização ainda pouco estudado
O movimento de concentração vertical segue firme — inclusive com aquisição de clínicas de terapias, segmento que passou a ter peso importante na composição dos custos.
“Faltam estudos sobre o impacto real dessa verticalização na vida de quem paga e usa os serviços.” – Adriano Londres
Segundo ele, é preciso entender se há ganhos reais de eficiência e qualidade assistencial para o paciente.
O que disseram os especialistas
“O hospital é onde tudo acontece: está o paciente, o médico, a operadora e os insumos. Quando se desequilibra esse ambiente, toda a cadeia sente”, enfatizou Antônio Britto.
Para que o sistema de saúde suplementar seja sustentável, é preciso que haja compromisso de todos os elos — operadoras, hospitais, fornecedores e profissionais. Há necessidade de diálogo, responsabilidade e visão sistêmica para enfrentar os desafios que seguem no horizonte de 2025.